Representatividade: ingressos para 'A Mulher Rei' esgotam em matinê

A fila dobrava na bilheteria e se estendia além do Cine Metha Glauber Rocha, na Praça Castro Alves. A espera pelo tão cobiçado ingresso chagava à Avenida Sete, na manhã deste domingo (16). Mas às 10h30, horário previsto para o início da sessão, os 630 lugares já tinham sido vendidos. Todos queriam ver a “A Mulher Rei”, uma história verídica, até então esquecida, sobre as Agojies, guerreiras que protegiam o reino africano de Dahomey nos anos 1800. Foi preciso abrir uma sessão extra às 13h. A maioria do público era de pessoas pretas que queria se ver como nunca foi enxergada antes no cinema.
“É uma história de representatividade. Essas guerreiras inspiraram outras produções, como o exército de Dora Milaje que defende o trono do reino de Wakanda, no filme Pantera Negra (2018), e também as amazonas e a Mulher Maravilha, que, neste caso, as personagens foram retratadas nos desenhos e filmes por mulheres brancas. Então, ‘A Mulher Rei’ traz não só a força das pretas, como também é uma reparação quanto à usurpação da história do povo negro”, declarou a estudante de pedagogia Helen de Jesus Fonseca, 22, uma das primeiras pessoas que adquiriu o ingresso.
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| A fila para comprar ingresso no Cine Metha Glauber Recho chegou à Avenida Sete (Foto: Paula Fróes/CORREIO) |
“A Mulher Rei” tem seu elenco majoritariamente feminino e negro, algo que é novidade para um filme de Hollywood. É protagonizado por uma das atrizes mais renomadas da atualidade, Viola Davis, que interpreta a general Nanisca. As Agojies lutam contra os colonizadores, tribos rivais e todos aqueles que tentam escravizá-las e destruírem suas terras em Dahomey, hoje o Benin. “Sei que vou me gostar da história, porque tenho minha mãe de 94 anos e minhas tias como exemplo de luta. Todas foram guerreiras, mães que trabalharam sozinhas para sustentar os filhos”, disse a aposentada Dilma Vasconcelos, 68, em uma das quatro salas destinadas à exibição do longa.
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| A aposentada Dilma Vasconcelos diz que a família é formada por mulheres guerreiras (Foto: Paula Fróes/CORREIO) |
Já na entrada do cinema, a médica Ana Elisabeth Marback, 61, estava ansiosa para garantir a entrada. “Não vejo a hora de entrar e prestigiar o filme que só teve elogios dos críticos. Além disso, qualquer pessoa negra no Brasil se identifica com a produção, que traz a luta e a coragem dessas guerreiras. Isso porque a gente tem que se vestir com essas qualidades, caso contrário fica à margem da sociedade”, declarou a cardiologista.
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| A cardiologista Ana Elisabeth Marback resalta a importância do filme para o povo negro (Foto: Paula Fróes/CORREIO) |
A estudante Beatriz Muniz, 23, era também mais uma entre muitos na fila quilométrica. Ela fez um paralelo entre a produção e a escravidão no Brasil. “Muitos negros trazidos para cá, eram reis, rainhas, guerreiros, que vieram anônimos para serem escravos e com isso tiveram suas memórias apagadas. O filme é importante que mostrar que naquela época havia uma sociedade aguerrida, como outras que também foram excluídas pela cultura branca”, disse ela.
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| Ana Beatriz cita que muitos escravos trazidos ao Brasil foram reis, rainhas e guerreiros (Foto: Paula Fróes/CORREIO) |
O filme faz tanto sucesso, que teve gente que encarrou a fila para assisti-lo novamente. “É um trabalho emblemático porque mexe com a gente. A general mostra que é uma mulher forte, mas quando sozinha chora as suas fraquezas. Fiquei emocionado na primeira vez que vi, porque passei por situações semelhantes, e por isso quero ver de novo”, declarou o coordenador de projetos Vinícius de Oliveira, 30.
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| Vinícius de Oliveira diz que o filme é emocionante e foi assistir pela segunda vez (Foto: Paula Fróes/CORREIO) |
Ingressos
O sucesso de público foi o mesmo do dia 9 (domingo) desse mês, quando os ingressos para o filme foram também vendidos por R$ 4. Segundo o sócio e idealizador do Cine Metha Glauber Rocha, Cláudio Marques, o valor promocional é uma forma de estimular o acesso à cultura e também estimular o hábito de ir ao cinema. “Até hoje, mesmo após à pandemia, as salas dos cinemas de todo o Brasil estão sendo ocupada os 50% de sua capacidade com a popularização do serviço de streaming”, disse ele.
Marques pretende para o próximo domingo, 23, outra matinê de “A Mulher Rei”. “As pessoas estão procurando muito. E a ideia é trazer de volta as matinês aqui, com filmes infantis e também grandes produções, com preços promocionais”, declarou.
O filme estrelado por Viola Davis dominou as bilheterias dos EUA em seu fim de semana de estreia, arrecadando US$ 19 milhões (cerca de R$ 100 milhões na cotação atual) em 3.765 cinemas – a estimativa era de US$ 12 milhões. O longa custou US$ 50 milhões para ser produzido, sem incluir as dezenas de milhões em despesas de marketing — incluindo uma estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
Fonte: Correio






