Estão no meio de nós

Quando eu era pequeno, perguntei a meu pai para onde iam os índios depois do Dia do Índio. Não tanto por causa da data, mas porque os índios sumiam dos livros de História antes do final de abril. E me chamava a atenção que as mulheres que circulavam nas partes mais distantes do pequeno centro de Ilhéus tinham a pele da cor de cobre e os cabelos pretos e lisos. Como podia uma pessoa ser assim, preta de cabelo liso e comprido? Respondeu meu pai que poderiam ser descendentes dos índios. Para mim, então, os índios estavam ali, tomando ônibus com sacolas cheias de espigas de milho, inhame, laranja, aipim, abacate… Só bem mais tarde compreendi que nasci e me criei em território Tupinambá. Para onde teriam ido os índios? Esta pergunta me vinha de vez em quando, quando olhava o Morro de Pernambuco, na entrada da Baía do Pontal. E hoje os vejo passarem sobre carros bonitos, pintados de verde e amarelo, enfeitados de palmas de dendê, nos quais os devotos arreiam fumo, mel, frutas, alfazema, moedas e bilhetes. A Cabocla e o Caboclo estão no meio de nós. Tomam ônibus no Largo do Luso, pegam o metrô na estação de Campinas de Pirajá e a lancha do Mar Grande ali no Comércio. Compram na Feira de Cajazeiras e, aos domingos, enchem o Porto da Barra de alegria, ousadia, irreverência e muita zoada. Vêm de Águas Claras e Caixa d’Agua, Belmonte e Morro do Chapéu, Entre Rios e Correntina. Quem são as pessoas que estão ali louvando a Cabocla e o Caboclo, seja em Salvador, seja em Itaparica, seja ainda em outras cidades como Maragogipe, Cachoeira, São Félix, Santo Amaro da Purificação, Saubara, Salinas, Jaguaripe, Bom Jesus dos Passos, Itacaré…? São de todas as cores e idades, seguidores de algumas religiões ou militantes de algum modo de afirmação identitária. Ou simplesmente curiosos, às vezes turistas que perguntam: “o que esses índios estão fazendo aí…?” Todos podem se ver nos carros majestosos da Cabocla e do Caboclo. Nenhum cortejo é mais vibrante e arrebatador. Eles arrematam tudo que somos. Apontam a única direção que pode levar à construção de um povo, uma nação. Mais que simplesmente uma população, um dado demográfico e estatístico. A Cabocla e o Caboclo estão ali naquela mistura de tudo. Leem bilhetes escritos na língua portuguesa, escutam cantos em línguas africana, aceitam oferendas que remetem ao seio da terra. A salvação trazida pela Cabocla e pelo Caboclo passa pelo aceno à convivência dos diferentes. Os Caboclos entraram no mundo dos aplicativos eletrônicos. São deuses seguidos e clicados no panteão do Instagram. Têm milhões de seguidores, associados às Marias Padilhas e Júlias Galegas e a outros membros da imensa família de Exu, a turma de Zé Pelintra, os Pretos Velhos. Nas casas de Candomblé onde se diz que eles têm posto de destaque, são vistos e cultuados em torno das árvores. Nas outras casas, também estão; a cada vez que uma ebomi abre um novo terreiro, ele salta e se apresenta, pois já fazia parte daquele universo místico. O 2 de Julho é a grande festa das diferenças postas na mesma ocasião. Todos podem ver como passam tão bonitos, oscilando um pouco no alto das carruagens. Durante o cortejo, de vez em quando, pode cair um pacotinho com um frasco de alfazema, uma maçã ou uma tangerina ou mesmo um charuto. São os Caboclos distribuindo suas bênçãos e dizendo que todos podemos estar ali juntos. No 2 de Julho, como no 25 de Junho em Cachoeira e no 7 de Janeiro em Itaparica, isto acontece porque eles vão passar para ficar ali. Cabocla, passe suas penas nos nossos rostos para que possamos nos ver em sua silhueta brasileira tão bonita. Caboclo, passe sua lança e suas flechas sobre nossos ombros para que possamos ajudar você a carregar o mundo, que às vezes é pesado. Viva o 2 de Julho. O número 2 é radiante, pois até o Sol é brasileiro. O projeto Bahia livre: 200 anos de independência é uma realização do jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.
Fonte: Correio




