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Onde será o descanso eterno de Gal Costa?

Após anos sem convivência com a amiga Gal Costa, o último encontro não foi como Paulinho Lima esperava. Não apenas pela dor da perda, mas também pelo vazio de não ver um velório do quilate de Gal. Ex-empresário e produtor de alguns discos eternos da cantora, como Fa-Tal, Lima sabia que a intérprete gostaria de ser enterrada no Rio, ao lado de sua mãe, Mariah. Incomodado, o produtor resolveu desabafar no Instagram, o que ocasionou uma avalanche de fãs e conhecidos compactuando com as impressões do velho amigo, além de apontar uma responsável pela despedida tão simplista para a grandeza de Gal: a própria viúva, Wilma Petrillo. 

“Não tenho ódio dessa mulher [Wilma], pois convivi pouco com ela. Só vi ali uma grande injustiça com a história de Gal. Foi muito triste. Fiquei muito chocado quando vi Gal morta naquele caixão, completamente sem maquiagem, uma falta de cuidado com o corpo, sem o brilho que ela sempre emanou. Uma mulher bonita num caixão de quinta categoria, num lugar completamente errado… Ela deveria estar sendo velada no teatro municipal ou algo ligado à música. Todos sabiam que ela queria ser enterrada no Cemitério São João Batista, ao lado de sua mãe”, disse Paulinho Lima, ao CORREIO. 

Nem o empresário sabia que sua declaração nas redes sociais teria tanta repercussão e  apoiadores. Lima alega que ganhou mais de mil seguidores e decidiu não responder às pessoas que também não gostaram de como foi conduzido o velório, sem o brilho e a real importância da artista baiana. A viúva, Wilma Petrillo, escreveu na postagem de Paulinho, mas não obteve resposta. “Paulo, você não sabe de nada”, escreveu, emendando: “Esse tal Paulo não convivia com Gal há mais de 40 anos”, acrescentou. Tentamos falar com Petrillo, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta edição. Falaremos dela mais adiante.

“Isso tudo me deixou bastante chocado e acabei fazendo aquela nota no Instagram. Fiquei ainda mais assustado com a repercussão. Eu tinha poucos seguidores, ganhei mais de mil que foram lá no meu perfil apoiar o desabafo, pois tiveram a mesma sensação de descaso. Eu nem discuto mais, pois não quero confusão. Mas todos, seja amigos, familiares ou fãs se incomodaram com aquilo”, disse Paulinho, que alega o fato de todos terem avisado à viúva que o desejo de Gal era ser enterrada no Rio de Janeiro, no jazigo que ela comprou após a morte da mãe e também é considerado o descanso eterno dos famosos e influentes. 

No Cemitério São João Batista estão enterrados nove ex-presidentes da república, imortais da Academia Brasileira de Letras, além de artistas da música, como Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Carmen Miranda e Tom Jobim. Gal Costa comprou um jazigo perpétuo em 1993, após a morte da mãe, Mariah Costa Penna. Na época, segundo amigos próprios, o túmulo custou cerca de 50 mil dólares e hoje estão enterradas a genitora de Gal e uma tia. Era para  a cantora também descansar lá, mas Wilma Petrillo optou em enterra-lá num jazigo da família da própria viúva, em São Paulo, local onde moravam junto com o filho adotivo, Gabriel Costa. 

“Todos da família sabiam deste desejo de Gal. Ela queria ser enterrada ao lado da mãe, no Rio. Embora não tivesse relação com a viúva,  Guto falou com Wilma, disse tudo isto, mas não foi escutado. Inclusive tinha empresários dispostos a arcar com as despesas para levar o corpo até o Rio, com um jatinho particular, inclusive. Mas ela não escutou ninguém, nem o próprio desejo de Gal”, completa Paulinho. Guto, citado por Lima, é o irmão de Gal Costa, Guto Burgos, que chegou a ser empresário da irmã, mas acabou saindo de cena após relação da cantora com  Wilma. Guto não quer entrar em polêmicas, diz estar ainda vivendo o luto, mas admite que avisou sobre o último desejo de Gal em ser enterrada no Rio. 

“Eu prefiro não dizer nada sobre o assunto agora, me perdoe. Neste momento ainda sinto muita dor pela perda de Gal e não quero entrar nesta polêmica agora. Foi tudo meio louco, mas prefiro não comentar. Me incomoda muito tudo isso. Tentei de tudo, mas fazer o quê, né?”, resume Guto, sobre o velório organizado pela viúva. 

Amigos próximos também preferem evitar polêmicas, mas não escondem que a homenagem para Gal poderia ser maior e melhor. Marcus Preto, produtor de Gal, principalmente nos últimos shows, prefere lembrar da artista baiana quando estava viva. “De verdade, eu prefiro não falar sobre esse assunto. Eu quero que o Brasil se lembre de Gal como a artista linda e exuberante que ela sempre foi, que vai viver pra sempre por meio de sua obra fundamental. Do resto, eu não fiz parte”, respondeu. A viúva Wilma também não informou oficialmente a causa da morte de Gal Costa. 

Quem se dispõe a falar, prefere não se identificar. Amigos de infância de Gal Costa conta o quanto a artista era dependente de sua genitora e acabou transferindo para a companheira. “A mãe sempre foi super protetora, defendia Gal de muita coisa. Gal cantava tão bem, era tão boa no que fazia, mas não sabia lavar uma roupa. Dona Mariah era um doce, protegia Gal de tudo e todos. Fazia tudo para a filha. Quando  Wilma entrou em cena, a mãe já tinha morrido. Depois dela, Gal se retraiu e se afastou de todos os amigos. Talvez tivesse se tornado dependente”, conta uma amiga que mora no Rio de Janeiro. 

Viúva
Não se sabe muito da história de Wilma Petrillo e como conheceu Gal. Um artista que convivia com Gal alega que Wilma foi casada com um médico e morava em Nova York. Lá, tinha aproximação com outros artistas também, como João Gilberto. “Wilma era muito bonita e influente no meio artístico. Morava nos Estados Unidos com um médico, mas não sei como a relação com Gracinha [apelido de infância de Gal]  começou. Gal era muito reservada na sua vida amorosa. O certo é que passou a ser muito difícil a convivência com Wilma. Ela passou a ser empresária, deixando de lado o irmão de Gal [Guto Burgos], uma pessoa corretíssima que hoje trabalha com a família Caymmi. Gal entrou num limbo muito grande. Wilma sequer gostava de Caetano [Veloso] e colocava dificuldade quando alguém queria conversar com Gal”, alega o artista. 

Gal e Wilma estavam juntas desde 1998. Já estavam casadas quando o filho, Gabriel Costa, foi adotado. Além de empresária, Wilma também era sócia da esposa. Segundo o Jornal Extra, elas tinham sociedade em duas empresas, uma delas a Baraka Produções Artísticas. “Não conheci a última versão da Gal. Na verdade, nenhum dos amigos antigos conheceram. Gal, depois da Wilma, se tornou uma pessoa reclusa. É difícil te dizer se o casamento era feliz ou não. Não sei o que levou tanto descaso no velório. Sei que é um adolescente, mas como Wilma deixou o filho, Gabriel, usando um fone de ouvido o tempo todo no velório? Eles, que estiveram com Gal até seu descanso, não tinham a dimensão que minha amiga tinha no país”, reclama um amigo antigo de Gal. 

Wilma Petrillo na juventude (Facebook)

Segundo amigos de infância, poucas pessoas conseguiam conviver com Gal. A atriz, diretora e amiga, Lúcia Veríssimo, ainda conseguiu uma aproximação. Ela chegou a postar um comentário sobre o velório na postagem de outro amigo de Gal, Ciro Barcelos: “Estou atenta. Pode deixar. Tudo a seu tempo”, escreveu. Ao CORREIO, Veríssimo preferiu não falar sobre o velório e toda a polêmica envolvida, mas não deixou de demonstrar sua insatisfação. 

“Gal é, junto com Elis [Regina], as duas vozes mais deslumbrantes do Brasil e do mundo.  Sua luz deixa uma imensa lacuna dentro da cultura brasileira e será insubstituível. Que Gal sempre seja lembrada pela enorme contribuição para a arte. Em mim, deixa um imensurável vazio e saudade irreparável. O resto acho que tem que ser questionado a quem organizou sua despedida”, diz Lúcia Veríssimo.

O ator Ciro Barcelos, em postagem no Instagram, ainda alega sonhar numa possível transferência e novas homenagens em solo fluminense. “Que o corpo de Gal seja levado para o Rio de Janeiro e repouse ao lado de sua amada mãe, querida de todos nós, que com ela convivemos. Que Gal Costa receba a derradeira e merecida homenagem que não lhe foram prestadas em São Paulo. Que seus fãs e amigos possam, sim, visitar seu túmulo e cobri-lo com flores”, escreveu.

Será possível transferir o corpo de Gal para o Rio de Janeiro? Em regra, agora não. Segundo uma lei municipal de São Paulo, só é permitida a exumação após três anos, contando a partir da data do óbito. Ainda assim, precisa ser reclamado pelos familiares, neste caso o filho, dono da herança da mãe, mas sob a tutela de Wilma, já que tem 17 anos. Se o impasse entre Rio e São Paulo permanece impedindo que Gal descanse, nunca foi cogitada a possibilidade dela ser enterrada em Salvador, onde nasceu. Da Bahia ficam apenas as energias positivas, principalmente do Terreiro do Gantois, casa em que a artista era filha de santo, iniciada pela própria Mãe Menininha do Gantois. 

“O retorno de Ègbón Gal Costa à essência deixará saudade em nós todos(as) mas temos a certeza de que seu caminhar no plano espiritual será de Luz e nos braços de Ọlọ́run. Desejamos serenidade e paz de espírito a todos(as) Familiares, Amigos(as) e fãs espalhadas por todo o Mundo”, disse Mãe Carmen, em nota. O terreiro não informou se houve algum ritual voltado para a caminhada de Gal Costa até o Órun, a morada dos mortos no candomblé.  O tradicional ritual de passagem fúnebre no candomblé é conhecido como axexê, que pode levar dias. O ato desata os laços entre o corpo e alma, mas mantêm uma conexão entre a pessoa que fez a passagem e seus antepassados. Talvez seja isso que Gal Costa mais precise. O restante é apenas corpo sem alma. Gal é luz. 
 

Fonte: Correio

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