Bahia

O Verão em que a cerveja sumiu dos bares de Salvador

Depois de uma corridinha marota, embriagado(a) de endorfina (tá pago), você resolve entrar num estabelecimento e pedir uma cerveja para refrescar. Sem muito jeito, o garçom vira e diz que o item está em falta – não tem nem ali, nem em qualquer lugar em volta. Parece cena de um futuro distópico em Feira de Santana, ou do presente no Catar, mas acredite, foi uma situação muito comum no passado de Salvador, nos longínquos e pouco abastecidos verões dos anos 1980.

Uma das chamadas de capa do Correio da Bahia de 5 de janeiro de 88 já demonstra que era um problema que se arrastava por algumas altas estações. Sob o título ‘No verão a cerveja só desaparece’, lia-se um breve resumo da contumaz escassez: “Não é novidade. Sempre que o Verão chega, a cerveja desaparece. Agora mais uma vez está acontecendo. O povo reclama, sem qualquer sucesso. Segundo o gerente de uma fábrica baiana, a produção não aumenta nesta época do ano, quando o consumo é muito maior. Aliás, a produção é igual aos demais meses. Ou seja, a indústria não se prepara para enfrentar a demanda. Resultado, a cerveja some mesmo.”

Arquivo CORREIO

A situação era tão insólita que até as reações acabavam indo no embalo, com consumidores e até vendedores denunciando que as distribuidoras estavam “boicotando o Verão.” Um dos que fizeram essa constatação, na edição do dia 4 de janeiro daquele ano, foi o barraqueiro Edson Tebgue, que atuava em Ondina. Numa reportagem, Tebgue explicava que estava lidando com a situação de forma criativa: como quem não tem sariguê, caça com rato, oferecia à clientela “batidas de caju, caipirinhas, misturadas, refrescos de caju e manga”. 

“Efetivamente, o primeiro domingo do Verão foi um dia atípico para os banhistas: a escassez de cerveja e de refrigerantes polarizou as discussões”, comentava outra chamada de capa que buscava culpados para o desabastecimento. ‘Estão escondendo cerveja’, dizia o título do alarde. 

Justificativa
Noutra reportagem, já dois dias depois, intitulada ‘Quem esconde a cerveja?’, o então gerente de vendas da Artactica, Hipólito Gomes de Freitas, se defendeu das críticas, negando que ele e sua empresa tivessem culpa no cartório. 

“A distribuidora Antarctica não está retendo cervejas e refrigerantes. Não conseguimos atender à procura porque nossa capacidade de produção continua com os mesmos níveis do ano passado”, disse ele em resposta às “acusações de pequenos comerciantes e barraqueiros das praias e festas de largos sobre a limitada entrega de bebidas e refrigerantes no período de Natal e Ano Novo”

Na ocasião, Hipólito reiterava que a fábrica de Salvador encontrava dificuldades para atender os pedidos das centenas de pontos de vendas espalhados na cidade durante o verão “porque a produção é praticamente a mesma durante todos os meses do ano”. “Como nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro a procura é muito maior, nós não temos condições de elevar a cota de cada comerciante. Nossos critérios não discriminam, uma vez que observamos a ficha cadastral de cada cliente e atendemos segundo os pedidos feitos no ano anterior”, justificou-se.

Múltiplos fatores
Procurei o economista Edval Landulfo para entender o que havia de errado naquela Salvador oitentista, que não conseguia dar conta dos anseios cervejísticos da população em pleno Verão. Segundo ele, fatores diversos, de ordens política, econômica e estrutural, contribuíram com a falta de abastecimento. 

“A década de 80 é considerada a década perdida. (…) E você não tinha muitas cervejarias ainda. Era algo nacional. (…) Na época, as indústrias não eram tão grandes porque não se vendia tanto para você ampliar, para ter a garantia de um resultado positivo nessa ampliação das empresas. Então, entrava Verão, saía Verão, acontecia isso”, comenta Ladulfo, antes de explicar que “por mais que se operasse em capacidade máxima, eram empresas e fábricas pequenas”, sem capacidade de dar vazão à demanda.

“E isso passa por questões da moeda também: só de 1979 até 1994, período de 15 anos, tivemos cinco moedas e sete planos econômicos. Então, isso não dava segurança para investir”, complementa o especialista, que é conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon-BA).

Num mercado consumidor com poder aquisitivo reduzido, e fábricas pouco modernas, não adiantava a “maximização total dos meios de produção”. Ladulfo explica ainda que a situação só começou a melhorar a partir da primeira metade dos anos 90, quando há uma abertura, “e isso causa todo o diferencial do mercado que conhecemos hoje, no qual várias empresas chegaram e estão chegando, seja no mercado artesanal, bebidas importadas… Já tem um outro cenário”. Desce mais uma!

Fonte: Correio

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