Não era ‘match’, era cilada: 5 sinais de que ele pode ser um ‘golpista do Tinder’

Um ‘match’ apenas e ele se apresentou como um homem inglês, que trabalhava com investimentos, mas que estava em São Paulo e cuidava de um tio doente. A administradora Aline Fernandes, 41 anos, inicialmente queria só conhecer novas pessoas após enfrentar um divórcio. “Rapidamente, do aplicativo passamos ao WhatsApp, em que ele usava um número de telefone da Inglaterra. Conversávamos por texto diariamente, me contava sempre como tinha sido o dia, comentava do tio. E isso se tornou uma amizade”.
Com frequência, o mercado de investimentos em criptomoedas também passou a ganhar espaço na conversa. “Eu não tinha conhecimento sobre criptos e ele se propôs a me ensinar como fazer as operações. Primeiro, abri uma conta em uma corretora mundialmente certificada e idônea. Em um dado momento, ele sugeriu que eu trabalhasse com uma outra corretora que ele conhecia e tinha costume de investir”.
E foi nessa parte da história que o ‘match’ virou golpe. Aline descobriu que o perfil e as fotos eram falsas. O inglês cuidadoso com o tio e que comentava, inclusive, sobre notícias que estavam acontecendo no mundo, como a Guerra da Ucrânia e como isso poderia impactar diretamente nos investimentos, era, na verdade, uma quadrilha especializada.
“Conforme você transfere as cotas para a corretora indicada pelo golpista, você não sabe, mas está transferindo valores para uma plataforma fake, montada e gerenciada por uma equipe profissional. O comando na tela para fazer o resgate dos valores estava bloqueado, não tinha como continuar com o pedido. Foi aí que percebi que tinha algo errado”, relata.
Parece só coisa de filme da Netflix? Mas não é. Embora o Golpista do Tinder (Inglaterra, 2022) lançado pela plataforma no início do ano, tenha se tornado o documentário mais assistido do streaming até o momento, a gente precisa dizer que perfis como o de Simon Leviev – que se passava por um magnata do ramo dos diamantes, conquistava mulheres na internet e roubava milhões de dólares delas – estão cada vez mais presentes nos aplicativos de relacionamento, fazendo mais vítimas.
Uma pesquisa para o projeto Era Golpe, Não Amor, divulgada no último mês, aponta que 82% das mulheres brasileiras já iniciaram conversa com alguém por um app de relacionamento. Quatro, em cada 10, já foram impactadas por golpes nestes aplicativos, como destaca a sócia da empresa de pesquisa e monitoramento Hibou e coordenadora do estudo, Ligia Mello.
“O documentário foi um alerta para pensarmos de que maneira o hub poderia ajudar outras mulheres. Infelizmente, a criatividade não tem fim. Dos golpistas, o que se observa é a construção do personagem sempre para o lado emocional”, comenta.
Os golpes seguem uma mesma lógica: começam com a paixão e promessas de algum futuro, passam pelo pedido convincente de apoio financeiro e terminam com o sumiço. Entre os golpes mais identificados, o pedido de dinheiro emprestado foi relatado por mais da metade das brasileiras (53%), segundo o estudo que ouviu 1,2 mil mulheres de todo país. Já 25% solicitaram ajuda para pagar alguma conta e 39% escutaram mentiras ou invenções sobre a vida real do ‘crush’ em meio a uma deslizada e outra pelos perfis.
Entre as que sofreram perdas por estelionato sentimental, 12% afirmam que perderam mais de R$ 5 mil. Para 20%, as perdas financeiras somam entre R$ 500 e R$ 2 mil. Outras 10%, até R$ 500; e 3% perderam de R$ 2 mil a R$ 5 mil. O hub ‘Era Golpe, Não Amor’ promove atendimento psicológico gratuito, suporte jurídico e dicas de como recuperar perdas para mulheres que sofreram estelionato sentimental. Elas podem se cadastrar e encontrar esse apoio no site www.eragolpenaoamor.com.br.
A sócia-diretora da agência de comunicação Fresh PR e uma das responsáveis pelo coletivo, Desirèe Hamuche, destaca os danos emocionais que mais aparecem na pesquisa: três em cada dez mulheres (38%) relatam que mudaram sua perspectiva quanto a conhecer pessoas pela internet; enquanto 29% desistiram de usar sites/apps de relacionamento. Além disso, 14% desistiram de procurar alguém para se relacionar e 10% passaram por quadros de depressão.
“A dor que elas passam é muito pesada. Nosso objetivo é mostrar que elas não estão sozinhas, que possuem uma rede de apoio e conhecimento para atravessarem essa fase. Dezenas de mulheres entraram em contato conosco e estão passando pela primeira triagem para receberem atendimento psicológico”, diz Desirèe.
Golpe sentimental
Ainda no caso da administradora Aline Fernandes, o ‘match’ imperfeito a levou a investigar com a ajuda de uma amiga e dos seus irmãos porque ela não conseguia resgatar o dinheiro investido.
“Eu achava que não estava dando dinheiro para uma pessoa e, sim, investindo um valor para mim. Descobrimos inúmeras denúncias mundiais contra a corretora, com golpes no mundo todo. É um esquema muito bem arquitetado e estruturado, sem brechas para que as vítimas desconfiem”, ressalta.
Aline afirma que teve um prejuízo estimado em R$ 600 mil, entre investimentos, impostos e taxas cobradas para resgate de valores. Ela conta que chegou a buscar ajuda com todas as instituições financeiras envolvidas, inclusive dos Estados Unidos, e bancos nacionais.
“Todas elas se isentam da responsabilidade e afirmam que não há o que fazer. Tinha me divorciado e esse valor era o patrimônio da minha vida e eu perdi tudo. Fiquei em choque. Tive que sair do emprego e estou com uma ajuda financeira dos meus irmãos e procurando emprego. Sei que sou a vítima, mas me senti culpada e envergonhada”, relata Aline.
Para a psicóloga e doutora em Ciências da Saúde, Tina Zampieri, o ‘modus operandi’ do golpista vai oferecer tudo que a pessoa deseja de acordo com o que ele consegue captar e que é a necessidade emocional daquela vítima. Tina é também vice-Presidente da Associação Brasileira de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing/ Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares), abordagem que utiliza para tratamento de estresse pós-traumático.
“É importante ressaltar que a cultura, de modo geral, ainda segue um tom machista, que coloca a mulher como aquela que espera, que está sempre na expectativa de receber uma proposta ou um convite, que nutre a esperança de ser conquistada. E é isso que o golpista oferece: um papel de conquistador”.
Todo tipo de sentimento abate essas vítimas que, na maioria, são mulheres, como acrescenta Tina Zampieri: “A depressão, a ansiedade, insônia, pesadelo e outras formas de reviver as situações, em que se consolida as crenças negativas sobre si mesma: ‘sou burra, realmente não tenho valor, não presto para nada mesmo. Como eu acreditei?’ Esses pensamentos ruins tomam conta das vítimas, as imobilizam e se torna muito difícil lidar com tudo isso”.
A funcionária pública Flávia Barbosa, 43 anos, quase se rendeu a lábia do conquistador. Lá, em um belo dia, ele soltou que a parcela do carro estava atrasada e sugeriu que ela usasse seu cartão de crédito em uma máquina de pagamento que ele tinha. Em troca, ele deixaria um notebook de garantia.
“Sou solteira, servidora federal, tenho minha estabilidade, minha casa, meu carro. E o alerta foi justamente quando ele começou a falar dessa questão financeira de forma bem direta”, relembra. Flávia cancelou o ‘crush’.
“Os aplicativos aproximam as pessoas, mas existem sim aqueles que em algum momento tentam identificar a fragilidade feminina para dar um golpe. Eles acreditam que somos capazes de tudo para ter um homem”.
O Tinder é hoje o aplicativo mais popular do mundo para conhecer novas pessoas. A plataforma soma mais de 430 milhões de downloads e já atingiu mais de 60 bilhões de matches. Em nota, o Tinder afirmou que tem trabalhado em parceria com o Match Group Advisory Council (MGAC) e ONGs no Brasil para continuar desenvolvendo inovações que priorizem a segurança. “Quando uma pessoa é denunciada por comportamento violento ou criminal, a conta é removida e bloqueada de todas as plataformas do Match Group”, escreveu.
Rede de apoio
A advogada especializada em Direito Familiar e da Mulher, Izabela Leite, explica que existe um projeto de lei tramitando desde 2019 para que o Estelionato Sentimental seja inserido no artigo 171 do código penal, que tipifica o crime de estelionato, com pena de 1 a 5 anos de prisão.
“A vítima deve juntar todas as provas, entre elas boletos pagos, comprovantes de transferência, extratos de cartões de crédito. É importante não apagar as conversas que tiveram, printar as fotos, levar tudo a um Cartório de Notas e solicitar a confecção de uma Ata Notarial”, orienta.
Em seguida, Izabela aconselha registrar um boletim de ocorrência em qualquer delegacia territorial ou de atendimento à mulher. “Acompanhei um caso em que o golpista falou que trabalhava muito para cuidar de uma mãe doente, remédios caros, briga na justiça para conseguir medicação. Amava animais, queria abrir uma ONG. E tudo isso mexe com a confiança. Caso a vítima não queira se expor, ela pode fazer registro em uma delegacia virtual”.
Na Bahia, a Polícia Civil informou que não tem contabilizado o número de denúncias registradas de golpes financeiros e de estelionato sentimental em apps de relacionamento. “Busque a defensoria pública, um advogado particular especializado ou ongs para encontrar apoio jurídico e psicológico. São atendimentos que devem andar juntos, pois os danos financeiros aconteceram, mas o dano psicológico deve ser acompanhado para que a vítima possa se recompor e se fortalecer”.
CINCO SINAIS DO ‘MATCH’ GOLPISTA
1. O date dos sonhos
O golpista sempre chega excessivamente acolhedor, sem nenhum defeito;
2. Alma gêmea
Ele se porta exatamente como imagina que a vítima espera que seja. A perfeição exagerada é um alerta;
3. Planos para o futuro
O excesso de “melosidade”, as promessas, o “para sempre”, “vamos construir juntos”, “estou investindo com sua ajuda” – mas a [parte] dele não aparece – são mais sinais de atenção;
4. Sinal vermelho
Quando a vítima se recusa ou diz que não tem condições de colaborar, o golpista endurece a conversa e passa a ter um tom mais agressivo;
5. Não era amor
Mais um fator é o abandono, assim que o golpista percebe que a vítima não tem nada a oferecer.
Fonte: Coletivo Era Golpe, Não Amor
CONSELHOS DO TINDER
. Verificação por Foto e Selo Azul
Recentemente, o Tinder lançou a seção ‘Explorar’ onde, por exemplo, os membros podem ter mais controle sobre quem eles conhecem, optando por perfis verificados;
. Sem pressa para o date acontecer
Mantenha as conversas só no Tinder enquanto está conhecendo alguém, sem a necessidade de fornecer o número de telefone;
. Relacionamentos à distância ou internacionais
Fique atento a quem afirma ser de outro país. Desconfie de qualquer pessoa que recuse conversar por telefone ou videochamada;
. Denuncie comportamentos suspeitos e ofensivos
Bloqueie e denuncie pedidos de dinheiro ou doações, usuários menores de idade, perturbação, ameaças e mensagens ofensivas, comportamento impróprio ou prejudicial durante ou após se encontrar pessoalmente e perfis falsos;
. Central de Segurança Tinder no Brasil
No ano passado, o Tinder lançou dentro do app a Central de Segurança no Brasil. A iniciativa não só oferece orientações sobre como denunciar membros, desfazer um match e verificar a foto de perfil, como também disponibiliza uma lista de locais que dão apoio aos membros em áreas como saúde mental, violência de gênero e segurança na internet.
Fonte: Tinder
Fonte: Correio

