Insatisfeitas, 16 mil pessoas pedem demissão por dia no Brasil; entenda os porquês

Cerca de 500 mil pessoas pedem demissão por mês no Brasil, em outras palavras, significa dizer que 16 mil pessoas desistem de postos de trabalho a cada dia. Isso foi o que mostrou um levantamento feito pela Você S.A. Dados do Instituto de pesquisa Gallup mostram que 63% das pessoas deixam as empresas por motivos não-financeiros. Mas afinal de contas, o que vem levando as pessoas a se desligarem do trabalho quando há tanto desemprego?
Especialista em gestão de pessoas e sócia fundadora da Véli Soluções em RH, Margot Azevedo explica que esse fenômeno não está acontecendo apenas no Brasil e que, nos Estados Unidos, as demissões também estão em crescimento e até receberam um nome, “The Great Resignation” ou “A Grande Renúncia”. Países como a China, Índia, Reino Unido, Alemanha e França também experimentam uma nova tendência de pedidos de demissão em número elevado, identificada após a pandemia.
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| Margot Azevedo destaca que as pessoas estão buscando satisfação profissional e pessoal, além de qualidade de vida, mesmo ganhando menos (Fotos: Divulgação) |
“É como um rearranjo do mercado, onde boa parte da população economicamente ativa do país decide, por vários motivos, pedir demissão de seus empregos. Esse movimento vem sendo protagonizado, principalmente, pelos millennials e também a geração Z”, esclarece.
Pandemia
Margot ressalta que as pessoas estão buscando melhores condições de trabalho, mais satisfação, mais qualidade de vida, mesmo ganhando menos, se for o caso. “A pandemia, de uma forma geral, aproximou todo mundo do que é realmente essencial para cada um. Tem gente trocando de cidade, buscando lugares mais tranquilos, mesmo que isso exija uma mudança de área profissional na qual se sintam menos sobrecarregados, menos estressados e mais felizes”, reforça.
Professora do Curso de Psicologia da Unijorge, na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho, Simone Chaves reforça que nesse período de dois anos, quando muitos perderam pessoas para a Covid, se sentiram ameaçados(as) também proporcionou um questionamento a respeito das culturas organizacionais tóxicas, da ausência de inclusão e diversidade na maioria das empresas.
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| Simone Chaves destaca o papel das lideranças no momento de reter talento nas organizações e como a cultura tóxica é um dos maiores fatores de renúncias (Foto: Arquivo pessoal) |
Aliado a isso, muitos profissionais questionaram aspectos dos modelos de trabalho adotados, refletindo sobre as condições laborais, o quanto é exigido aos(as) trabalhadores(as) em relação ao que se recebe como pagamento e reconhecimento; a pressão dos empregadores, cujo discurso apregoa que aqueles(as) que estão empregados(as) deveriam se sentir felizes, frente ao número de pessoas desempregadas e banalizando todo o estresse, pressão que é colocado sobre os(as) trabalhadores(as) para conseguir atingir as metas.
“Muitos(as) profissionais têm escolhido trabalhar por conta própria, mesmo com todo o risco que esta escolha implica. Outra questão é que tem segmentos em alta, como a tecnologia da informação e os(as) profissionais com conhecimentos específicos são bastante disputados e, neste caso, já saem para outro emprego”, pontua a psicóloga.
Simone destaca também as questões geracionais porque, a partir da geração y, os profissionais têm expectativa de crescimento em curto prazo, e quando isto não acontece, não temem correr o risco da demissão e buscar outro emprego ou trabalhar por conta própria.
Cultura Tóxica
Sócia-diretora da Crescimentum, com mais de 10 anos de experiência em Gestão Empresarial e Desenvolvimento Humano e Organizacional, com foco na maximização do desempenho individual e de equipes Veronica Ahrens lembra que o Brasil é um país muito diverso e a desigualdade é uma característica presente, logo, quando se analisa os indicadores relacionados aos pedidos de demissão, encontra-se diferentes realidades entre os trabalhadores.
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Veronica Ahrens pontua que o ambiente organizacional tem um impacto profundo e as pessoas, muitas vezes, se demitem das lideranças e não das organizações (Foto: Divulgação) |
“Alguns que optam por deixar seus postos de trabalho buscando uma oportunidade no empreendedorismo ou numa atuação mais autônoma, enquanto outros encontram melhores oportunidades de construírem carreira dentro de outras organizações”.
Veronica Ahrens cita ainda uma pesquisa do MIT que demonstrou que o principal fator para o grande pedido de demissão que se vivencia é a cultura tóxica. “Esse nome está relacionado às toxinas que liberamos em nosso organismo, quando o ambiente onde atuamos não é favorável, como por exemplo, quando existem exclusões de pessoas, quando somos punidos por erros inéditos, quando não temos um espaço de voz para colocarmos nossas opiniões”, explica. Ela diz que, muitas vezes, as pessoas se demitem dos seus líderes e não da organização.
Margot Azevedo completa afirmando que boa parte dos profissionais deseja continuar em trabalhos remotos, com mais liberdade e menos tempo desperdiçado com transporte, por exemplo. “Com o retorno de muitas empresas ao formato presencial, muita gente está optando por pedir demissão, caso não haja flexibilidade da empresa para um formato híbrido, por exemplo”, afirma a sócia da Véli.
Para ilustrar sua afirmativa, ela destaca que o Linkedin rastreou e acompanhou todas as suas contas entre 2020 e 2021 e descobriu que a porcentagem de usuários que mudaram seus empregos ou até mesmo área profissional no perfil aumentou cerca de 54%.
Retenção de talentos
Professor universitário da área de negócios, empresário e engajado em causas sociais, Anderson Freitas defende que bons salários associados a uma cesta de benefícios, um atrativo plano de carreira, ferramentas adequadas para o desenvolvimento das atividades profissionais ajudam na retenção de talentos. “Um ponto crucial para a manutenção de bons funcionários é conseguir oferecer equilíbrio entre as atividades profissionais e qualidade de vida, ou seja, sem metas abusivas e cobranças indevidas por desempenho”, afirma.
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| Anderson Freitas diz que o equilíbrio entre as boas condições de trabalho e a qualidade de vida definem a permanência de um profissional (Foto: Arquivo pessoal) |
Para Freitas, é um engano pensar que emprego dos sonhos é tão somente aquele emprego que pague um alto salário. “Penso que emprego dos sonhos, primeiramente, é aquele que me pagar um salário justo diante do que me é demandado, agregando bons benefícios e um excelente ambiente para desenvolver minhas atividades profissionais. De qualquer sorte, ainda é uma resposta um pouco subjetiva”, complementa.
Com uma postura parecida, Margot Azevedo diz que uma organização que deseja reter talentos precisa trabalhar suas relações internas, respeitar e valorizar a diversidade de seus times, reconhecer que todos são diferentes e que precisam ser tratados com equidade. “Ter uma remuneração competitiva ajuda mas não é tudo. Oferecer oportunidades reais de crescimento, liberdade para criar e opinar. Oferecer boas condições de trabalho e um clima organizacional saudável”, finaliza.
Percentual de mudança
• 63% das pessoas deixam as empresas por motivos não-financeiros;
• 500 mil pessoas pedem demissão por mês no Brasil;
• Entre 2020 e 2021, houve um incremento de 54% de pessoas que mudaram de empregos ou área profissional.
Fonte: Correio





