Bahia

Desbunde sempre, até na despedida

Pode parecer contradição, mas foi vivíssimo no palco do Teatro Oficina foi o velório de seu criador, que foi cremado na tarde desta sexta-feira, em Itapecerica da Serra, sua cidade natal. Antes mesmo do corpo de Zé Celso chegar ao espaço, localizado no Centro de São Paulo, na noite desta quinta-feira, uma multidão já o esperava na rua. Saudado com gritos de “Evoé” e “Viva, Zé”, o caixão do diretor foi velado com uma procissão contínua de canto, dança, poesia, performance e, claro, muito choro, abraços e risadas. Emoção à flor da pele, como ele gostava. Um rito amoroso de quem entendia o trabalho visceral que o ator, diretor e dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa fazia no Ofcina, projetado por Lina Bo Bardi para colocar o palco no centro de plateia. O teatro para a multidão e pela multidão, que comoveu tanta gente, trazendo sentimentos à flor da pele, acompanhou pulsante Zé Celso até o último momento. Até sempre, como ele costumava se despedir dos amigos. Iconoclasta como o celebrado artista paulista, que morreu aos 86 anos por causa de ferimentos resultantes de um incêndio em seu apartamento, provocado pela pane de um aquecedor elétrico, a cerimônia de despedida no Teatro Oficina foi uma cartase dionisíaca, com direito a cânticos para Oxum numa fonte do espaço e marchinhas de carnaval. O espetáculo foi tanto que teve até telão para quem não conseguiu entrar acompanhar com mais conforto. “Zé Celso é vida”, disse o ator Marcelo Drummond, que se casou com o diretor há um mês naquele mesmo espaço. “Eu não quero cair no drama, na fita francesa. Foi uma tragédia, aconteceu, vamos tocar em frente. Temos que lembrar que o Zé é vida. Ele ensinou isso, que precisa ter vida o tempo inteiro e força”, afirmou Drummond aos jornalistas. De fato, foi uma festa repleta de amigos, companheiros de trabalho e do público que ele tanto amava. Teve até brinde de vinho, validando a energia do deus Dionísio, do vinho e da luxúria, que rondou Zé Celso a vida toda. Bacantes Para encontrar Zé Celso ninguém ia enganado: a tônica de seus espetáculos era a participação do público, como de praxe no teatro dele. A plateia podia ser convocada a qualquer momento para se misturar aos atores na releitura da tragédia grega. Em 1997, quando o dramaturgo trouxe a peça para Salvador, a história seria repetida, claro. A diretora e coreógrafa Carmen Paternostro, 74, lembra bem quando o marido, Roland Schaffner, 89, foi arrastado para o meio dos atores. Mesmo ela teve dificuldades em compreender o momento em que as atrizes tiraram a roupa do companheiro, que foi diretor do Instituto Cultural Brasil Alemanha (Goethe). Enquanto Schaffner participava de forma improvisada do espetáculo, Carmen tentava recolher os pertences dele, espalhados no palco. “Foi muito rápido. Eu só vi as roupas dele voando pelos ares e eu tentando resgatar. Ele sequer teve tempo de negar a participação”, relembra, aos risos. A lembrança mais viva de Paternostro é da risada do marido: “Tinha um momento que o elenco feminino passava sem calcinha e ele tinha que ficar embaixo daquele túnel de vulvas. Ele achou um barato, teve um acesso de riso. Eu nunca tinha visto ele rir daquela forma”. Interação com plateia O espetáculo, com cerca de quatro horas de duração, juntava de marchinhas, como Mamãe Eu Quero, até músicas dos Mamonas Assassinas. A releitura de Zé Celso narrava o conflito entre Dionísio, o deus do vinho e da luxúria, e Penteu, o rei de Tebas. Este, ao negar a divindade do outro, é estraçalhado pelas Bacantes, sacerdotisas de Baco. A peça ia ao extremo para mostrar ao público até que ponto o homem pode negar as exigências de forças superiores. Nesse caso, a sexualidade. Presente na plateia de uma das apresentações no Rio, Caetano Veloso foi convocado pelas Bacantes e aprendeu na pele que o ser humano não é capaz de resistir durante muito tempo aos desejos carnais. Também no final dos anos 90, o cantor teve suas roupas arrancadas e terminou chupando o peito de uma das atrizes. Em entrevista à Folha de S. Paulo após o ocorrido, o ícone da Tropicália manteve a irreverência que lhe pertence: “Para mim foi normal, fiquei relax”. Quem não ficou nada “relax” foi o também diretor teatral Fernando Guerreiro, hoje presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM). Já sabendo das artimanhas de Zé Celso e com medo de ser chamado para participar da encenação, fez questão de manter uma distância aparentemente segura dos palcos. Só aparentemente, porque ele chegou a ser convocado, mas resistiu à pressão. Para isso, precisou se arrastar no chão. “Zé sempre tinha a mania de chamar as pessoas para participar das peças, era uma sinergia do Teatro Oficina, tanto que eu sempre me escondia. Até que um dia, ele me viu no segundo andar e foi me buscar. Ele tentou me arrastar, mas desistiu porque eu me joguei no chão”, relembra Guerreiro. À primeira vista, pode parecer que a nudez era o que incomodava o baiano, mas a lama foi o maior problema para ele. “Se fosse para só dançar nu, eu dançaria. Mas tinha um negócio de ficar se arrastando pelo chão de barro que eu não queria não”, revela. A necessidade que Zé Celso tinha de interação com o público foi um dos muitos fatores que fizeram a baiana Danielle Rosa, 38, se apaixonar pelo Teatro Oficina. Era a sensação de acompanhar o teatro vivo, algo que ela nunca esqueceu. Em 2007, ela foi levada por uma amiga para assistir a uma peça em Salvador e, três anos depois, se mudou para a capital paulista para tentar entrar na companhia. “Estou há 12 anos trabalhando de forma ininterrupta com Zé Celso e acredito cada vez mais no poder do teatro com a multidão e para a multidão”, diz. Para o ator baiano Jackson Costa, 55, acompanhar o diretor era uma experiência de caráter sobrenatural: “Eu penso que teatro de verdade era o que Zé Celso fazia. Ele fazia baixar uma entidade chamada teatro, que era ele mesmo. Não tinha um espetáculo que ele fizesse que nós, enquanto público, não nos tornássemos mais vivos”.

Fonte: Correio

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