Bahia

Comeram a bola e Bete morreu; eis o nosso futebol

A propaganda ideológica massiva do negócio de apostas no futebol bagunça o princípio agonístico, relacionado a agon, o daemon (encantado grego), responsável por estruturar jogos e competições. Desde 776 a.C., data dos primeiros Jogos Olímpicos, o agon defende o ideário esportivo de viés moral: não trapacear, aprender na derrota, evitar tripudiar do adversário ao vencer, respeitar as regras e jogar em paz, com lealdade. A invasão do campo pelas casas de aposta exacerba e altera a proporção do daemon, pois perde-se a noção das práticas virtuosas: o vício do “ganhar dinheiro” torna hegemônica a mecânica da roubalheira, locupletando alguns. O punhado de envolvidos, entre bodes expiatórios corrompidos e espertíssimos corruptores, seria apenas uma amostragem: o cenário arrumadinho ganha ares de arte cênica, a fim de provar à clientela tratar-se de algo breve e pontual. O Brasil já enfrentou experiência parecida quando a Revista Placar denunciou, em 1982, a máfia da loteria, com envolvimento de 152 futebolistas de clubes de todas as regiões do país, inclusive titulares de times baianos muito queridos. O resultado do jornalismo (hoje extinto) praticado pelos colegas da Placar abalou tanto a loteria a ponto de jamais ter o concurso recuperado a confiabilidade. Ora, se em um concurso mediado pelo governo e fiscalizado pelos servidores públicos da Caixa Econômica foi possível criar uma teia visando combinar resultados, não é difícil construir hipótese de algo muito mais tentacular agora. A saída para quem lucra com a jogatina – governantes omissos, gestores e investidores – é persuadir a Polícia Federal a levar as investigações na cadência do reggae, enquanto #tocaCamisa “Bete, Bete morreu!”. Pelo número de suspeitos e já com jogadores apenados, pode-se pensar em colocar sob suspeita os resultados e as classificações finais, seus campeões e rebaixados de todo e qualquer certame jogado no Brasil. O método indutivo permite pensar cientificamente em alta probabilidade de contaminação geral, pois este grupo de investigados é representativo de práticas similares em todo o país. Basta cumprirem as autoridades seu dever de apurar para chegarmos à conclusão de estarmos habitando uma redoma sombria, sabendo-se o perfil do brasileiro médio. Quantos apostadores já estão arruinados pelo vício! Os sujeitos das disputas por dinheiro, poder e glória precisam lembrar de um conceito utilizado nas questões de meio ambiente: sustentabilidade. Com a roubalheira, o futebol mercantil ficará insustentável. Outra questão estrutural, mas tratada como pontual é a relacionada ao racismo, pois a campanha “Com racismo não tem jogo” é necessariamente hipócrita. Foram estes mesmos donos da bola, os responsáveis por excluir os pretos das arenas, pelo elevado preço dos bilhetes e ordenamento excessivo, além de expulsarem os mercadores, subiram o vermelho para as baianas de acarajé…. As agressões a Vinicius Jr. expressam este modelo consumista-branco do futebol: não há casos isolados de racismo e vigarice poluindo nosso futebol; há, sim, um futebol estruturado para o racismo e o enriquecimento ilícito. Não precisa técnico para convocar uma seleção de canalhas, grandes craques… da bandidagem! Paulo Leandro é jornalista e professor Doutor em Cultura e Sociedade

Fonte: Correio

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