Acarajé da Barbie: entenda polêmica envolvendo revolta das baianas

Uma prática tradicional, tão religiosa quanto gastronômica, vendida em tabuleiro, batizada no azeite de dendê e relacionada ao culto dos orixás. Estamos falando da produção e venda do acarajé, iguaria original do Benim, trazida ao Brasil no século XVIII pelo povo preto e amplamente comercializada em Salvador até hoje. No entanto, na terça-feira (18), a tradição da receita do patrimônio cultural brasileiro foi desviada por Drica do Acarajé, vendedora em Itapuã e Paripe, que resolveu tingir o famoso bolinho cor-de-rosa, em homenagem ao lançamento do filme “Barbie”. Não fosse a inserção da anilina, corante geralmente usado em glacê de bolos de festa, Adriana Ferreira dos Santos não teria sido retaliada pela Associação das Baianas de Acarajé (ABAM), que acusou a comerciante de estar desrespeitando a tradição religiosa e cultural. Mas, apesar do corante em nada ter afetado o gosto da iguaria – sim, esta repórter que vos escreve provou o acarajé -, o buraco fica mais embaixo. “Imagine se alguém pinta a hóstia, que é um símbolo da Igreja Católica. Todos respeitam. Por quê não respeitar o nosso acarajé que é comida ofertada aos orixás e patrimônio cultural?”, questiona Rita Santos, presidente da ABAM, e acrescenta: “Ela quer homenagear a Barbie, se vista de baiana, toda de rosa, ornamente o local de trabalho de rosa, e não mexa em algo que é patrimônio e cultura do povo preto por causa de uma boneca americana”, critica. De acordo com o Iphan, no universo do candomblé, o acarajé é comida sagrada e ritual, ofertada aos orixás, principalmente a Xangô (Alafin, rei de Oyó) e a sua mulher, a rainha Oiá (Iansã), mas também a Obá e aos erês, nos cultos da religião. Outro ponto que já foi definido em decreto municipal diz respeito à caracterização das vendedoras, que, ao menos em Salvador, devem estar trajadas, no momento da venda do acarajé, com roupas, acessórios e tabuleiro típicos. No estabelecimento de Drica, todas as atendentes, assim como ela, trajavam calças e blusas da cor rosa bebê. Em dias comuns, a farda das funcionárias é preta, segundo as próprias confirmaram. Drica, no entanto, reconhece que desagradou e limitou a venda até a quinta-feira, dia da estreia do filme da boneca americana. Com ameaça de processos, ela opta por ressaltar que não é do candomblé, mas que a tradição de fazer o bolinho já é antiga em sua família, e começou com sua mãe, evangélica, há mais de 30 anos. “De forma nenhuma quero tirar a preservação da cultura afro e das baianas de acarajé. Foi uma forma para reinventar meu trabalho, como todas as empresas estão fazendo, com o lançamento da Barbie. Eu vendo acarajé como minha fonte de renda, não sou da religião. Todos os mercados vendem acarajé congelado, elas não vão conseguir impedir isso”, pontua a dona do local. O sucesso nas redes sociais, por sinal, é inegável. Desde que começou a divulgar tanto o acarajé quanto o bolinho de estudante no estilo Barbie, já ganhou mais de mil seguidores no Instagram, segundo relata. Os novos fãs se juntam aos 89 mil que já seguiam a página. A entrega acontece ainda por delivery e em uma segunda loja, no bairro de Paripe, em Salvador. Mas, a ideia não foi a primeira de Drica a ofender as baianas de acarajé. Em suas redes sociais, ela se autointitula como “fundadora da barca de acarajé”. Na época, ela diz que se referiram ao produto como o “sushi baiano”, de forma pejorativa. “E atualmente, quase todas as baianas adotam. Inclusive, já vieram outras aqui hoje me dizer que vão começar também a vender acarajé rosa, adoraram”, conta. Quanto às criticas, ela dá o recado: “Lembrando, como falaram, que eu não sou baiana de acarajé, sou vendedora de bolinho de feijão e de bolinho de tapioca, ao invés de bolinho de estudante. Eu nunca abri minha boca e disse que sou baiana a caráter, mas sou uma vendedora que tem uma mente brilhante para criar”, argumenta. Aos curiosos que querem testar a novidade, o acarajé cor-de-rosa não tem valor adicional sobre ele, apesar de ser uma edição especial, e fica entre R$ 8 e R$ 15, a depender dos acompanhamentos. Já o bolinho de estudante rosa está a R$ 7.
Fonte: Correio




