Esporte

A ‘traição’ de Lisca Doido. Quatro jogos depois de juras de amor ao Sport, ele acerta com o Santos. E revolta Recife 

Lisca comemorando sua ‘comunhão’ com o Sport. Quatro jogos depois, vai para o Santos
Rafael Bandeira/Sport

São Paulo, Brasil

Um líquido indefinido foi atirado nas suas costas, escorrendo pelo corpo quando se levantou do banco de reservas.

Envergonhado, o técnico garante que não foi cerveja. Não confirma ter sido urina.

Depois de molhado, com o líquido impregnando seu corpo, preferiu acompanhar ao jogo sentado, mudando suas características de pular, incentivar, cobrar, ‘jogar com o time’.

Ouvi os gritos de ‘mercenário’ durante 90 minutos.

Torcedores mostrando dinheiro para o treinador.

Apoiar o time no importante jogo contra o lanterna Vila Nova ficou em segundo plano.

O 0 a 0 foi péssimo. Os três pontos eram obrigatórios.

Os milhares de torcedores que estavam na Ilha do Retiro queriam se vingar da traição de Lisca.

Todo o carinho da torcida pernambucana virou ódio, ressentimento.

O mesmo técnico que chegou fazendo juras de amor, falando em volta à Série A, e que assumiu o time contra o Vasco, há 19 dias, já tinha acertado sua ida para o Santos. E estava se despedindo.

De acordo com a imprensa pernambucana e a santista, Lisca Doido acertou sua ida para o Santos ainda na segunda-feira à noite, conversando direto com o presidente do Santos, Andrés Rueda.

Vai trocar os R$ 200 mil que recebia no Sport por R$ 300 mil no Santos. Sem multa rescisória, insistiu a cúpula do time paulista, que deve mais de R$ 400 milhões.

Lisca não teve coragem, ontem, após o melancólico 0 a 0 com o último colocado da Série B, de repetir que seguiria no Sport até o final da temporada, como havia deixado claro quando assumiu o clube. Atitude constrangedora.

“Eu não garanti nada. Vocês (jornalistas) estão colocando palavra na minha boca e eu não garanti nada”, repetia.

O executivo do Sport, Jorge Andrade, se recusou a responder qualquer pergunta ontem. Ele estava visivelmente irritado, ciente de que Lisca já se acertara com o Santos.

“Respeito demais a torcida do Sport. Estava de novo aqui, casa cheia, vibrando. Vaiou quando tinha que vaiar, está insatisfeita com o time. E até ficou bom porque ficou em cima de mim e não dos jogadores, que tiveram tranquilidade para jogar. Infelizmente, a torcida se voltou contra mim no meio do jogo. Vou respeitar esse comportamento, praticamente me demitindo do clube. Hoje eu fui demitido pela torcida do Sport.”

A imprensa pernambucana ficou ainda mais irada, ao ver que Lisca Doido estava jogando a culpa pela sua saída para a torcida, que o teria ‘demitido’. 

O certo é que em 22 anos de carreira, Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi trocou 22 vezes de clubes. Tem como título mais significativo o da Segunda Divisão do Rio Grande do Sul, com o Porto Alegre, em 2009.

Só trabalhou em dois gigantes do futebol brasileiro. O Internacional, em outubro de 2016, em uma tentativa desesperada de evitar o rebaixamento para a Série B. Fracassou.

Assumiu o Vasco em julho do ano passado. Ficou apenas até setembro. Dois meses de péssimo desempenho do time.

Ficou quase um ano desempregado, até que no final do mês passado, acertou com o Sport.

E, agora, quatro partidas depois, fecha com o Santos.

Aliás, o clube da Vila Belmiro só chegou a Lisca Doido depois de ter sido recusado por Jorge Sampaoli, Renato Gaúcho, Abel Braga, Odair Hellmann. Todos sabem muito bem que não dinheiro para montar um bom time. E que o sonho do bicampeão mundial é não ser rebaixado no Campeonato Brasileiro.

Foi para isso que Lisca Doido foi contratado.

O Comitê Gestor descartou Guto Pereira, outro candidato ‘barato’ e que aceitaria ficar até o final da temporada, sem multa rescisória.

O técnico do Sport não teria pensado duas vezes ao receber a proposta.

Quando a diretoria do clube pernambucano soube ontem da sua decisão de sair, conselheiros vazaram para a imprensa a situação.

Fo por isso que os torcedores na Ilha do Retiro se revoltaram.

“Falei ao meu empresário: ‘tem um clube que, se aparecer oportunidade, vou atender’. Vim correndo quando me ligaram. Nem considero um convite: foi uma convocação. Acompanho o Sport há muitos anos e fico mais motivado em participar da reconstrução do clube”, jurou Lisca Doido, no dia 30 de junho.

Mas assim é o mercado de treinadores no Brasil.

Por unanimidade, os clubes derrubaram no Campeonato Nacional de 2022 a lei que limitava apenas à uma troca de técnico. Em 2021, já foi festival de hipocrisia, com inúmeras demissões assumidas como ‘comum acordo’, que abria brecha para quantas trocas quisessem.

A postura de Lisca Doido é deprimente.

Mas de acordo a dos dirigentes que demitem treinadores sem o menor constrangimento, sem planejamento, sem compromisso com uma filosofia de trabalho.

Seria interessante a Lisca Doido tentar descobrir como o argentino Fábian Bustos foi mandado embora. Depois de ouvir dezenas de vezes a promessa de reforço no fraco elenco santista.

E que chegará à Vila Belmiro com apenas uma missão.

A de evitar o rebaixamento.

Sem o menor compromisso que ficará na Vila Belmiro em 2023.

Mas Lisca Doido parece entender muito bem como é a relação entre técnicos e dirigentes no Brasil.

A falta de respeito, de comprometimento, é mútua…

Fonte: Esportes R7

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