Bahia

A biblioteca secreta

Tenho um amigo que, por acachapante timidez, dedica-se com afinco a elaborar recusas aceitáveis a todo e qualquer convite que envolva contato com outros seres humanos. Foram tantas nessa vida que, a certa altura, ele decidiu agrupar as melhores desculpas, aperfeiçoadas com o tempo, em compêndios que integram hoje uma biblioteca secreta. Em verbetes organizados por ordem alfabética, as justificativas foram registradas em volumes de capa dura, cujos títulos se referem às ocasiões em que meu amigo se ausentou voluntariamente de algum compromisso, recusado antecipadamente de modo elegante. O mais extenso versa sobre os casamentos, seguido de perto pelas formaturas. Embora leitor compulsivo, sobretudo dos autores russos, meu amigo reservou um espaço generoso, em sua doutrina do ensimesmamento, para as escusas endereçadas aos convites para tertúlias. E, como aqueles que colecionam receitas culinárias, teve o cuidado de acrescentar novos ingredientes aos seus argumentos de ausência a cada ano. Atentemos ao fato de que o meu amigo, em seus verbetes de recusa, nunca incorre no erro vulgar de inventar peripécias mirabolantes para se justificar perante aqueles que solicitam a honra de sua presença em algum brunch. Ao contrário, é com sobriedade e de modo convincente que ele exercita a sua retórica irretocável e derrota o oponente. Oponente? Caro leitor, você não leu errado. A verdade, que não se encontra em nenhum compêndio, é que o meu amigo nunca soube entabular uma conversa com estranhos. Ao ser forçado ao contato humano, na Sibéria imaginária de um encontro, erra o nome das pessoas, inverte os talheres, derruba o vinho, faz da sobremesa o primeiro prato. Esse seu amigo é um grande tonto, gritarão os mais afoitos do alto de uma montanha de aplicativos que prometem muito e entregam muito pouco. Mas não foi o Fernando que deu um bolo na Cecília em Lisboa? Ah, vocês lembram? E só porque havia lido, naquela manhã, bem cedo, as previsões do seu signo no horóscopo. Num jornal, ainda por cima. Então deixem em paz o meu amigo excêntrico, que ele é um inimigo dos excessos. Vocês nunca o verão de perto, porque ele vai achar sempre o mais perfeito e mágico argumento para escapar. E, caso dê certo, esse também irá para o compêndio. O contato humano testa o equilíbrio do seu corpo. E ele pode até morrer se alguém o cutucar.

Fonte: Correio

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