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Precisamos deixar de ter o prazer de comer?

Como se comer fosse um crime e ele um infrator, o professor Wesley Borges, 36, criava esconderijos para se alimentar. As refeições aconteciam na rua e os doces eram entocados no quarto. O nutricionista listava proibições e o paciente fingia seguir à risca. “O terrorismo nutricional começou aí”, recorda Wesley sobre aquele 2013, quando a comida virou vilã.

Há proibições que Wesley lembra, como o corte brusco de carboidratos e açúcares. O uso do termo “terrorismo nutricional” não era  comum, mas ele vivia seu significado todos os dias: a restrição dos alimentos aos nutrientes apenas, a retirada das refeições da rotina e a criminalização de hábitos alimentares.

Embora não apareça no Código de Conduta e Ética do Nutricionista, o terrorismo nutricional pode ser punido, de acordo com os princípios da profissão. “Um deles é considerar que a nutrição deve ir além do nutriente e considerar as dimensões do comer, sejam sociais, culturais, políticas, econômicas”, explica a presidente do Conselho na Bahia, Angelina Cordeiro. Não há estatísticas das denúncias relacionadas ao assunto. 

Essa semana, o Brasil transformou em meme a fala da influencer Maíra Cardi para o marido, o ator Arthur Aguiar, participante do BBB22. “Amor, você não podia ter comido pão. Você acabou de destruir o trabalho que fiz no seu corpinho”, reclamou ela nas redes sociais. Solto no reality, Arthur tem comido pão à vontade. Na última quarta-feira, dia da primeira festa do programa,  misturou lasanha, comida japonesa, carne de panela, empadão, pastel, hambúrguer, purê de batata…

Cardi se diz “empresária do emagrecimento” mas não é nutricionista. Ao reclamar da alimentação do marido, levantou uma discussão sobre como os alimentos são criminalizados e, nossos pratos, vigiados. “Tire o pão, o açúcar, a carne vermelha. Não coma  carboidratos”, dizia o nutricionista a Wesley. Como não se sentir aterrorizado?

De onde vem o terrorismo nutricional?
Depois de tantas proibições, Wesley desacreditou da possibilidade de um cardápio que não transformasse a comida em vilã, nem ele em criminoso. Só mudou de ideia ao mudar de nutricionista, em 2020, sete anos depois da primeira consulta. O terrorismo nutricional não é um termo científico, mas foi abordado pela primeira vez em 1994, pelo historiador Harvey Levenstein, estudioso da história da alimentação norte-americana.

Era década de 90 e os alimentos, dava para notar, passavam a ser enquadrados como “aqueles que fazem mal” e “aqueles que fazem bem e devem ser obrigatoriamente consumidos” – como chia, quinoa e uma lista de até então nutrientes desconhecidos, transformados em salvadores. Em Guanambi, ndo sul da Bahia, a nutricionista Gabriela Vilas Boas, vê o terrorismo nutricional modificar hábitos alimentares tradicionais.

“Pessoas mais velhas, por exemplo, foram recomendadas a cortar farinha. A pessoa viveu a vida toda comendo feijão com farinha e perdeu o prazer de comer porque foi proibida”, conta.

Outra paciente de Gabriela passou três meses sem conseguir comer feijão e arroz, um clássico da cozinha brasileira, porque tinha diabetes e foi recomendada a cortar carboidratos do prato. O terrorismo nutricional ganha vez num país faminto: em 2021, depois de oito anos, o país voltou ao Mapa Mundial da Fome. 

As bases de uma alimentação saudável existem:  vegetais, proteínas, fibras e carboidratos complexos, sem consumo frequente de ultra processados, como embutidos, refrigerantes e biscoitos, com altos índices de açúcar e sódio. As restrições, se forem indicadas para pessoas com alguma patologia, também podem acontecer sem que alimentos sejam vilanizados.

O terrorismo nutricional opera a partir de lógicas que desconsideram a vida real. O consumo dos carboidratos é o principal alvo dessa patrulha. Existe, por exemplo, um porquê. 

Os carboidratos são divididos em simples e complexos. Os simples, associados a alimentos industrializados, entram na corrente sanguínea e elevam a glicemia em um tempo mais rápido. A glicemia é a concentração de glicose no sangue. Se houver pico de glicemia, o carboidrato é depositado como gordura no corpo. No caso de uma pessoa com diabetes, por exemplo, a alimentação evita fontes de picos de glicemia no sangue.

“De início, existe um sentido. A questão é generalizar e dizer que todos os alimentos, em qualquer quantidade, fazem mal”, diferencia a nutricionista.

Casas brasileiras já tiveram panelas ‘fiscalizadas’
Na década de 40, as “visitadoras de alimentação” entravam nas casas das famílias brasileiras e destampavam as panelas para averiguar o que elas comiam, se tinha calabresa no feijão, quanto de sal consumiam. Eram mulheres que tinham o papel de “educar” a alimentação dos outros.

“A gente pode ver, com a entrada do higienismo no Brasil, o cotidiano sendo atravessado por recomendações de profissionais da saúde”, explica Lilian Miranda, doutora em Alimentos, Nutrição e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).  

Visitadoras de alimentação no trabalho (Foto: Acervo USP)

As visitadoras de alimentação deixam de existir na teoria, já que a quantidade de vigília alimentar multiplicou com o avanço dos índices de sobrepeso e das redes sociais digitais. Os nutricionistas, de acordo a lei vigente, são os únicos que podem prescrever planos alimentares. Mas, em ambientes online, a quantidade de conselheiros da alimentação alheia existem e podem aterrorizar.

O medo de comer, é verdade, faz parte da natureza humana. “A depender de quem te dá a comida, o medo faz parte. Você não vai olhar para todos os frutos da natureza e comer”, afirma a pesquisadora Lilian. Mas não são esses frutos a fonte do medo.

 “A lógica atual é dos corpos que não podem ganhar peso. Para não engordar, a comida vira um objeto. O sujeito paralisa de frente para a comida. O terrorismo opera com essa violência, com o pânico.  Assim é possível controlar [a pessoa] ”, conclui Lilian.

Desde 2019, os nutricionistas são proibidos de publicar fotos de antes e depois de pacientes – quase sempre relacionados ao emagrecimento. O CRN-5 informou que recebeu 29 denúncias entre aquele ano e 2020. É a partir da década de 2000 que o nutricionismo, este sim um conceito, começa a ser discutido. O nutricionismo é a redução do alimento aos nutrientes apenas, sem considerar a vida social, as memórias afetivas e a história de uma pessoa ao comer. “Essa quebra de conexões faz com que você vá numa festa, olhe para um pãozinho delícia, e não coma, porque não é ‘saudável’, porque há salvadores e vilões”, diz Lilian.  

Os vilões são criados, explica ela, para que os mocinhos sejam vendidos e defendidos pelas indústrias alimentícias e farmacêuticas. Só em 2021, mostra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, foram 19.140 caixas de sibutramina, remédio associado ao emagrecimento, vendidos na Bahia.

Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2021 (Foto: AFP)

A história das dietas começa a partir da perseguição do emagrecimento e o nutricionismo, reduzir um alimento a seus nutrientes, dialogará com a funcionalidade da nutrição – comer isto ou aquilo com uma função, como não engordar ou ganhar peso.

Em 1864, o coveiro inglês William Banting publicou um livro em que sugeria, a partir da experiência pessoal de emagrecimento, a substituição de pães, açúcares e batatas por carne, peixe e hortaliças. Esse é considerado um marco histórico do início das dietas. A estética padrão e a nutrição das dietas, pode se ver, caminharam juntas.

Cuidado e controle: na mesa com o nutricionista 
Entre 2014 e 2016, a nutricionista e pesquisadora Marcela Villela entrevistou nutricionistas para seu mestrado em Ciências Sociais, sobre cuidado e controle na nutrição. “Muitas respostas [chamaram minha atenção]”, recorda. Duas delas foram:

“Uma nutricionista disse que gosta quando os pacientes ficam dependentes, mandam mensagem para saber se podem comer e outra disse que se o paciente obedece às orientações, os resultados chegariam”, lembra.

No consultório, Marcela desvia desse tipo de atuação. A aterrorização do paciente leva à culpa, instiga discursos de mérito e pode causar transtornos alimentares. Os estudos da área da Nutrição indicam para os problemas de dietas restritivas e prescritivas, recomendadas no lugar de um diálogo que leve a um consenso sobre uma alimentação verdadeiramente saudável.

Essa forma de orientar sem diálogo, explica Marcela, tem “origem na medicina”. “Entendem o corpo como uma máquina e querem controlar o corpo, o peso, o apetite. Queremos entender e cuidar, manejar. Porque a relação com a alimentação é algo que teremos vida toda”.

O Guia Alimentar da População Brasileira indica caminhos para uma alimentação saudável. A base é o consumo de alimentos naturais ou minimamente processados, pequenas quantidades de óleos, gorduras, sal e açúcar ao cozinhar e a precaução com o consumo de ultra processados.

O Guia Alimentar da População Brasileira indica caminhos para uma alimentação saudável. A base são alimentos naturais, pequenas quantidades de óleos, gorduras, sal e açúcar no preparo e a precaução com o consumo de ultra processados. Importante frisar: a expressão “é proibido” não aparece no documento.

Fonte: Correio

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