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"Passaporte de imunização oprime", quem aguenta?

Felizmente, para o meu próprio bem, em algumas situações, ainda beneficio certas pessoas com a dúvida “será burrice ou má intenção”? Desta vez, faço ainda melhor: escolho acreditar que é só burrice mesmo e, como a pessoa burra não tem culpa de ser assim, pego nas mãozinhas das criaturas que acreditam, de verdade, que “passaporte de imunização oprime”. Quem aguenta? Só por hoje, não apenas aguento como também acolho carinhosamente. Estou empenhada em ser uma pessoa melhor. Ontem, dormi alegrinha e hoje acordei bem-humoradíssima, portanto o dia é propício para encarar desafios. Então, venha cá, Pequeno Gafanhoto Negacionista, e vamos dar um passeio por pensamentos que fazem sentido. Vamos? Eba! Vamos sim!

Observe: filósofos/as e grandes pensadores/as já escreveram sobre individualidades e coletividades, mas você não leu, não está lendo nem lerá. Tudo bem. Compreendo. Então, pra facilitar bastante, nosso “referencial teórico” aqui será apenas uma frase que mainha repete desde que eu sou pequena e me ajudou muito a compreender esse negócio de individual e coletivo. Preste bem atenção: “a sua liberdade termina onde começa a do outro”. Só isso. Simples, né não?

(Inclusive, não fui daquelas crianças que ficam sacudindo as cadeiras das outras pessoas, correndo e derrubando garçons nem gritando nos ouvidos de passantes porque escutava essa frase toda hora. Agradeço pela orientação.)

Ainda lhe escapa, o conceito? Tudo bem, vamos a um exemplo bem simples. É assim: você tem todo o direito de escutar a sofrência que quiser, em sua casa, em looping, até exorcizar a miséra que desconsiderou a flor de formosura que é você. Mas eu, sua vizinha (deus que me defenda), não sou obrigada de jeito nenhum. Então, a trilha sonora do seu desenlace não pode invadir a minha casa, confere?

Ou seja, aquelas caixas potentes que você comprou não têm função doméstica, dentro dos parâmetros de civilidade. Elas só podem cantar altão se a sua casa for uma fazenda, sítio ou chácara. De outro modo, devem ser usadas em volume baixo, ou você usa fone de ouvido pra juntar o corno com a otite traumática, problema seu. Se insiste em meter pocano na caixa, está ferindo a liberdade individual do/a vizinho/a que tem todo o direito de denunciar por que? Porque a sua liberdade de ouvir um som acaba quando a liberdade do/a seu/sua vizinho/a de querer silêncio – ou outro tipo de música – dentro da própria casa começa.

Outro exemplo pra fixar conteúdo: religião. Nesse, “o homem de bem” (e a mulher também) vai engasgar, mas tem que aceitar que absolutamente não importa a ele/a se a outra pessoa é ateia, candomblecista, cristã, budista ou seja lá o que for. Liberdade de crença que chama. Artigo 5 da Constituição. Simplesmente não é da sua conta a religião (ou ausência dela) de ninguém nem é da conta de ninguém a sua religiosidade, espiritualidade, como queira chamar. Não posso ser obrigada a rezar. Nem a dançar para patchamama, se eu não tiver vontade. Nem a viver sem matar formiga porque Buda não gostaria. Nem a fazer ebó nenhum (mas, se quiser, posso). Justamente por isso, o Estado é laico (pelo menos em tese) e nenhuma decisão de impacto coletivo deve ser tomada com base nos preceitos de qualquer religião. Né lindo? Eu acho.

Também por isso, muitos países mais desenvolvidos (outro dia foi a Argentina) já legalizaram o aborto, por exemplo. Porque quem tem que decidir se a blástula tem alminha, se a mórula é reencarnação de antepassado, se o zigoto tem sentimentos ou não, é a mulher que tá com a questão dentro da própria barriga. Para essa avaliação, pesam apenas as crenças, conhecimentos e subjetividades da recém-fecundada. A decisão dela entre seguir ou não com a gravidez não muda a vida de terceiros, portanto a opinião de terceiros não precisa ser considerada na decisão dela.

Faz sentido? Faz. Inclusive porque, se a mulher parir, quem vai criar o rebento é ela e não você que não vai pagar nem um real de pirulito para a suposta futura criança, porque nem paciência pra filho dos outros você tem. Então, a sua liberdade religiosa (ou de pensamento) termina onde começa a liberdade da outra de decidir se quer ser mãe ou não. Elementar, né? Por isso que é subdesenvolvido aborto ser proibido. Principalmente, quando sabemos que quem tem dinheiro aborta à vontade e só as pobres é que morrem sangrando com kit aborto comprado na internet ou de útero perfurado pelas “curiosas”.

(Mas, divago e vou recuar na complexidade dos exemplos.)

Beber é seu direito individual. Dirigir bêbado/a, não. Percebe a diferença? Quer encher a cara, o problema é seu. Quer passar por cima dos outros com seu carro, o problema é coletivo. Até bem mais simples: quero fumar, fumo. Mas não posso impor o meu cigarro a não-fumantes, em ambientes fechados. Outra: posso deixar a minha casa imunda que quem manda nela sou eu. Mas só até o limite da sujeira ficar dentro da minha casa. Se começo a criar ratos, mau cheiro e viro foco de doenças, a minha casa suja passa a ser questão de saúde pública, cabendo denúncia e interferência. Uma que o Índio (é o apelido dele) lá da ilha ignora: se a pessoa quer ir ao mercado nua, precisa estar em comunidades onde a nudez é vista com naturalidade porque, coletivamente, convencionamos que pessoas nuas não cabem em espaços públicos. Fazer o quê? Acatar. E pensar, sempre.

Se há contradições (e há!) em algumas questões envolvendo liberdade individual e pacto coletivo, é que somos humanos, imperfeitos e em construção. Muitos, tentando trabalhar por um ambiente mais saudável. Outros, puxando pra trás. É ai, exatamente, que está quem defende o “direito individual” à não vacinação. Garapa feita e abacate batido, por favor.

Esse “direito individual” antagoniza com o direito coletivo à vida de pessoas que já nasceram e querem continuar nascidas. Gente que já deixou de ser zigoto faz é tempo, tem nome, família, amigos, peguetes e, às vezes, até uns dois “amor da vida” simultâneos, em andamento. Gente que é “presente de deus” em perfil de Facebook e de Insta. Gente que já é contexto de outras gentes e que, morrendo, vai fazer falta. Ou não vai fazer falta nenhuma, mas acha que faria e o que importa é a autoestima. Percebe que é indiscutível?

A vacina previne o contágio. Em caso de contágio, evita o agravamento da doença e a necessidade de suporte hospitalar. Lembra que a lotação dos hospitais com casos de covid é um imenso problema coletivo? Quanta gente morreu – não só de covid – porque tava tudo lotado? Além disso, as pessoas não vacinadas são pipetas e buretas para o desenvolvimento de novas cepas desse mesmo vírus que pode dar um jeito de escapar das vacinas e reiniciar a pandemia. Aí, lascou ter que começar tudo de novo inclusive porque eu não suporto mais live e detestei fazer pão. Me explica, agora, que tipo de titica defende esse “direito individual” e acha que exigir “passaporte de imunização” é oprimir alguém? Não é você mais não, né? Ah, parabéns.

Assim, ó: comprovar vacinação para festas, eventos profissionais, contratações. Apresentar o documento para matrícula em escolas (isso sempre existiu, saiba, para outras doenças), para embarque em aviões, ônibus e trens. Pra beijar na boca, pra visitar família, pra sentar comigo no boteco também é capaz de eu pedir porque prefiro beber sozinha do que com gente abestalhada. Tem que pedir pra tudo na vida. Porque não se pode ir buscar os viventes em casa e obrigar que se vacinem. Concordo. Mas quem não assume a parte que lhe cabe em um pacto coletivo fica, então, em isolamento. Pronto. Pra mim tá ótimo, já que essas pessoas, claramente, não sabem, não conseguem, não estão aptas a conviver com ninguém.

Tá vendo a quarta onda na Europa? Provocada, justamente, pelos não-vacinados, pode pesquisar. E com novas cepas. Já há países onde esse povo não pode mais entrar em diversos lugares, acaba de surgir a proposta de lockdown apenas para quem não se vacinou. A discussão de “passaporte de imunização oprime” ainda acontece, no Brasil, porque, na parte da civilidade, a gente sempre foi meio lerdo mesmo. Então, é o seguinte: pare de frescura, vá se vacinar e pegue logo seu documento. Que nem diferenciar vírus de protozoário você sabe pra estar dando opinião. Não faz o retrato falado de uma mitocôndria nem com Átila Iamarino descrevendo direitinho e tá aí “ainnn, não sei o que tem dentro da vacina”. Tu não sabe o que tem dentro nem da salsicha, filho de deus, e come. Eta, eu disse que seria fofa, não foi? Foi. Parei. Tchau. Beijos de luz no seu coração.

Fonte: Correio

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