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Não precisa poluir todo mês: professora desenvolve e vende absorventes de tecido

Quem tem medo de falar de menstruação? Em meio às discussões sobre pobreza menstrual, esse virou um assunto em destaque em diversos espaços nos últimos dias. O tema não é tabu para Maria Amélia Gondim Braga, professora que criou a Helene Ecológicos, empresa virtual de absorventes de tecido. Ela mesma já distribuiu, de forma gratuita, absorventes para meninas de escolas públicas de Ituaçu, onde nasceu e mora, após duas décadas em Salvador. 

“Precisamos naturalizar a menstruação. Menstruar sempre foi encarado como algo sujo, intocável, mas é tão natural. É um momento de introspecção para algumas pessoas, bem dolorido, mas é normal”, explica. 

Para Maria é tão natural que ela utiliza a água de molho dos absorventes para regar as plantas do quintal do casarão colonial onde mora com a mãe, o marido e os filhos.

“Gosto de pensar que, se nosso útero todo mês se prepara para ter um bebê, o sangue que está nele tem muitos nutrientes. Rego a horta, o limoeiro, as flores, várias plantinhas. Tudo fica muito bonito, muito mais saudável”, garante. 

Ainda pequena, no município da Chapada Diamantina, localizado a 470 km de Salvador, Maria Amélia espiava a avó, a mãe e as tias costurarem roupas para ocasiões especiais da família, hábito comum no interior ainda hoje. A convivência entre linhas e agulhas fez com que ela também desenvolvesse habilidades de costureira. Agora, aos 52 anos, a professora administra o negócio de absorventes e produz as peças. A ideia da empresa veio após uma tomada de consciência ambiental.  

400 anos de poluição 
A partir daqui, precisamos falar também sobre o absorvente nosso de cada mês. Você sabia que a versão descartável leva mais de 400 anos para se decompor? “Menstruei pela primeira vez há 42 anos. Meu primeiro absorvente ainda está aí na natureza”, preocupa-se Maria Amélia. 

Ainda bem que, além dos absorventes de pano, tem aumentado a procura por calcinhas e coletores menstruais. O propósito é muito nobre: produzir menos lixo. 

Um levantamento do WWF (Fundo Mundial para a Natureza), tendo como base dados do Banco Mundial, coloca o Brasil como 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia.

Por aqui, ainda há 2.663 lixões em cerca de 2,5 mil municípios, segundo o Atlas da Destinação Final de Resíduos, levantamento publicado em 2020 pela Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre). 

Infelizmente, Ituaçu é um desses municípios com lixão. “Ituaçu é um paraíso, terra de Moraes Moreira (1947-2020), lugar lindo. Isso faz com que a gente se inspire e queira viver melhor. Precisamos preservar, até para poder criar os filhos de forma saudável”, conta a mãe de Artur, 15, e Helena, 11, que inspirou o nome da empresa. 

Por amor à cidade, há quatro anos, toda a família passou a adotar hábitos ambientalmente mais saudáveis: quando vão à feira e ao mercado, levam ecobags a tiracolo; sucos e drinks, só com canudos de inox; para escovar os dentes, apenas escovas de bambu. 

Pesquisa e renda extra 
Maria Amélia desenvolveu os absorventes de tecido depois de muita pesquisa e orientação profissional de médicos da medicina natural. Os estudos a levaram a um tecido altamente absorvente, o microsoft, que possui textura fofinha e poder de absorção oito vezes maior do que uma toalha. É isso que garante que o sangue não vaze por algumas horas. A parte externa do absorvente, com estampas variadas, é de tricoline 100% algodão, o que evita o aparecimento de alergias.

A pequena empresária costura, atende e anota os pedidos das clientes, embala as peças e envia “para todo o planeta”, tendo seus absorventes ecológicos já chegado na Espanha e nos EUA. 

O marido ajuda com o corte dos moldes, a montagem das camadas de tecidos e a parte financeira. “Ele trabalha na prefeitura, mas à noite e nos finais de semana, faz a parte dele. É um parceiraço!”, exalta a professora do Estado, que contabiliza R$ 4 mil de lucro mensal com a venda dos absorventes. 

O dinheiro é um complemento e também a forma que encontrou de manter-se ocupada e produtiva quando se aposentar, no próximo ano, após 32 anos de serviço público. 

Os pedidos podem ser feitos através do direct do Instagram (helene.ecologicos) ou via WhatsApp. Os absorventes são produzidos em quatro tamanhos e os valores variam de acordo com as medidas: mini (R$ 15),  normal (R$ 20), grande (R$ 25) e noturno (R$ 28). O frete custa R$ 20, em média, a depender do lugar. 

Os artigos duram de dois a três anos, se lavados de forma correta (deixar de molho em água fria de 30 a 40 minutos e depois lavar com sabão neutro à mão ou na máquina). “Não quero vender apenas um produto, quero vender uma ideia. A ideia de você mudar, de poder ter uma vida e um meio ambiente mais saudáveis”, enfatiza. 

Em breve, Maria pretende lançar calcinhas e cuecas absorventes de tecido. Estas últimas, para homens trans – indivíduos de anatomia feminina que se identificam com uma imagem pessoal masculina.

DICAS PARA UM NEGÓCIO SUSTENTÁVEL:

  • Tenha práticas sustentáveis no seu dia a dia
  • Descarte o lixo adequadamente e reaproveite os materiais utilizados
  • É necessário realizar estudo e pesquisa sobre os materiais
  • Seja transparente com o cliente com relação ao funcionamento e conservação dos produtos que você oferece
  • Abra um MEI. O CNPJ é fundamental para que se consiga comprar materiais com preços mais em conta.

Fonte: Correio

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