Bahia

Na vida real, a folha murcha e o tomate não é tão vermelho assim

Não se trata de nostalgia, caretice ou incapacidade de acompanhar os updates e upgrades das pautas do dia. Não, pode parar. Eu faço bom uso da tecnologia, até para conhecer o seu lado opressor o melhor possível. E também não tem nada a ver ou contra o trabalho da pessoa food stylist, um nicho urgente de um mercado que vende imagem. Não é isso. Essas pessoas geralmente são excelentes fotógrafas, de muito bom gosto e senso estético tão fino que assumem sozinhas a direção de arte do conteúdo imagético que produzem. Esse acervo pessoal tem muito valor e preço, que eu respeito como uma beata que beija os pés do santo. Não é isso. Mas antes de desenrolar um pouco mais essa prosa, nem todo mundo é obrigado a saber o que é food styling e quem é esse tal de food stylist – que seria, grosso modo, o equivalente ao maquiador(a) da comida para a sessão de fotos que vai para a mídia. Ora, aquelas mulheres lindas, perfeitas e absurdas, de dentes azuis, que só comem folha, não passam antes pelas longas sessões de cabelo, make, modelão, ventania de ventiladorzão, luz, contraluz, ciclorama e lentes de 35mm, entre outros recursos, para só então e como se não bastasse, chegarem ao bom e velho e definitivo photoshop? Então, comunico-lhes que a comida incrível que você vê na tevê, redes sociais e até mesmo no backlight da lanchonete passam pelo mesmíssimo processo. E quem monta esse cenário e faz acontecer o milagre de transformar a comida fria e cenográfica na mais linda, gostosa e sedutora que você PRECISA para ser feliz AGORA é a/o food stylist. O diabo é quando a pessoa que recebe o sanduíche murcho que definitivamente não condiz com o letreiro iluminado é um Michael Douglas em Dia de Fúria. Hein? Assistiu? Ele não dá conta porque aquele último e pequeno engodo vira a gota d´água para que ele declare guerra (armada) a um sistema de indução à cegueira coletiva da qual miraculosamente não foi infectado, sendo portanto e obviamente, considerado um sociopata. Considerado não, ele de fato se torna, mas quem não com um mínimo de visão? Daí, minhas camaradas, já viu, né? Tiro, porrada e bomba (o que me faz lembrar de outro deliciosamente inconformado no cinema, o Bombita do imperdível Relatos Selvagens, interpretado por um dos meus maridos, o Ricardo Darin). É por isso que eu amo os loucos. Porque eles enxergam para além, eles tomam duas pílulas vermelhas, e não perdem nenhum episódio do profético Black Mirror. Black Mirror, por sua vez, é uma série britânica de ficção (ficção?), algo distópica (distópica?) que aborda impactos e principalmente consequências imprevistas (imprevistas?) das novas tecnologias sobre a vida da gente. É genial, imperdível e assustador – quando eu constato quão largos se tonam a cada dia os nossos passos rumo ao que deveria ser a configuração do absurdo, do surreal – que só tem graça no contexto onírico da Arte. Não é com os avanços tecnológicos que eu me preocupo e me assusto, mas com a subjugação humana, amiga-irmã da ignorância. Deixem que os food stylists recebam os seus cachês, que os empresários fiquem felizes com as imagens de suas cozinhas, e que as fotos e vídeos estejam à altura das melhores entregas e engajamentos nas redes sociais; eu só acho que a gente não devia largar a mão dos nossos próprios sentidos e intuição; do cheiro que efetivamente sinto – e não daquele induzido pelo inconsciente ludibriado; do sabor que a minha língua subjetiva valida, do pão que foi o meu tato que partiu e o meu ouvido que ouviu; do que os meus olhos veem sem lente, do que o meu corpo sente e fala no silêncio da escuta. Só acho que a gente não devia se perder de um mínimo de vida real que seja. Porque na vida real a comida esfria, a folha murcha, o tomate não é tão vermelho assim; a massa vai perdendo o brilho, o risoto vai endurecendo, os assados não tem a cor uniforme dos reclames, e na vida real não tem holofote na mesa. E digo mais! Na vida real pode colocar açúcar no café, pode comer gema dura, pode colocar creme de leite no carbonara, pode espalhar o arroz no prato sem precisar enformar, não precisa gostar de abacate, nem ter medo de dizer que não gosta de peixe cru; pode servir macarrão sem técnica de enrolar, pode tacar coentro; pode até vinho suave e feijão com macarrão, ó que jóia! Não, feijão com macarrão não. Aí também já é demais também, deixe de maluquice. Beijo!

Fonte: Correio

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