Marcelo Sá e o sonho do cinema

Este jornalista já contou, há poucos meses, aqui mesmo, esta pequena anedota a seguir. Mas vale repetir, para se ter uma ideia de quem foi Marcelo Sá, que morreu ontem e era sócio do grupo Saladearte. Era o ano 2000, eu, minha namorada (hoje esposa) e minha mãe íamos pela primeira vez na recém-inaugurada sala do Bahiano de Tênis. Fomos assistir a Dançando no Escuro, drama pesadíssimo de Lars Von Trier, com a cantora Bjórk no papel principal. Quando nos aproximávamos da entrada da sala, Marcelo nos recebeu e disse: “Trouxeram o lencinho? Vão precisar”. Nós três nos olhamos e dissemos, nas entrelinhas, um para o outro: “E aí, vamos encarar?”. E encaramos, e Marcelo estava certíssimo.
Assim era Marcelo: bem-humorado, piadista, espirituoso.. e, sobretudo, um anfitrião de primeira. Deixava os clientes à vontade, tanto que, não à toa, os frequentadores daquele espaço dizem que formam, juntos, a “família Saladearte”.
Permita-me, leitor, ainda, uma outra observação em primeira pessoa: como cinéfilo, sentia falta no início deste milênio, de uma programação “alternativa” nos cinemas de Salvador, que havia recebido dois anos antes, no Shopping Iguatemi, o formato multiplex de uma cadeia internacional. A chegada daquelas salas modernas e imponentes prenunciava o fim dos circuitos independentes e regionais de cinema.
Mas Marcelo foi bravo: encarou a concorrência desleal das grandes redes e foi em busca de seu sonho. Vale lembrar que Salvador vivia o auge da axé music e praticamente o monopólio da cultura carnavalesca. Mas nada esmoreceu a veia empreendedora dele. E o circuito revelou-se um sucesso, mobilizando a comunidade cinéfila, que logo transformou a Saladearte num ponto de encontro.
Portanto, não é exagero dizer que Marcelo foi um dos responsáveis, junto com seus sócios, por uma transformação na cultura de Salvador. Com a chegada da Saladearte, abriu-se um novo mercado e o circuito cultural levou a chacoalhada que precisava. É lamentável que ele tenha partido neste momento, em que a Saladearte está se reerguendo, mas é bom saber também que Marcelo pôde ver, pouco antes de morrer, que o seu trabalho foi capaz de mobilizar tanta gente em torno de uma causa pela cultura, que anda tão desprezada pelo governo federal. Os cinéfilos baianos têm agora o compromisso de manter a Saladearte viva, por justiça à memória de Marcelo Sá, esse guerreiro da cultura local.
Fonte: Correio

