Lagartixa 'feminista', ousada e faladeira: conheça a nova espécie que invadiu Salvador

Tem gente que dá até nome para elas e cria como se fossem mascotes da casa. Outras pessoas têm nojinho. O certo é que aquela lagartixa no canto da parede tem seu lugar nos lares do baiano. Contudo, além de comer insetos, muita gente tem percebido algo diferente: elas estão fazendo barulhos estranhos, como se tivessem conversando. Estão também mais ousadas, tomando aquele restinho de suco no copo da pia. Não é apenas impressão, tampouco se trata de alguma evolução dos répteis que pretendem dominar o mundo. Ainda não. Na verdade, sua casa se tornou habitat de uma nova espécie que está povoando Salvador. Trata-se da Osga Barulhenta.
Por ser uma espécie nova no país, ainda se sabe pouco dela. Antes delas, nossas casas eram habitadas pelas lagartixas de origem africana, conhecidas cientificamente como Hemidactylus mabouia. Elas são menos barulhentas e mais tímidas, geralmente fogem quando nos aproximamos. Esta nova espécie é diferente. Denominada cientificamente como Lepidodactylus lugubris, a lagartixinha é uma espécie nativa do sudeste asiático, vinda para o Brasil recentemente em navios mercantes, como sugere a doutora em ecologia, Luisa Maria Diele-Viegas.
“Ela tem hábitos noturnos e tem uma alimentação generalista, o que significa que não tem uma preferência alimentar. Isso faz com que ela consiga colonizar novos ambientes com mais facilidade, o que é demonstrado pelo seu potencial de expansão de distribuição”, disse a doutora, com pós-doutorado na Ufba. Em relação aos barulhos que essas lagartixas fazem, pode ficar tranquilo, pois a bichinha não quer conversar com você. “Sobre a vocalização, de modo geral, ela ocorre por competição interespecífica, onde a fêmea dominante é desafiada por outras, buscando o melhor ponto de acesso à comida. Também pode ocorrer como um mecanismo de defesa”.
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O novo bichinho causa estranheza para alguns baianos, como a jornalista Fernanda Varela. Ela já não curte muito lagartixa, mas isso não foi empecilho para que as osgas invadissem a casa dela. “Tem quatro dessas aqui. Até Elton [o marido], que nem liga pra isso, está incomodado já. Falou que odiou essa nova geração. Elas fazem um barulho que parece um pássaro, são mais afrontosas e bagunçam tudo. Outro dia uma entrou no copo com resto de suco de caju que deixei na mesa”, conta Fernanda, que tem diversos vídeos com o barulho. “Elas se mudaram pra minha casa sem nenhuma ética”, brinca.
A bióloga Annelise D’Angiolella estuda esta espécie. O réptil inclusive chamou atenção de Annelise quando estava dentro de um cesto de lixo lambendo um papel de bala. “Tenho um vídeo dela em Belém debruçada dentro de um copo de mingau de milho. Tenho um amigo que encontrou uma lambendo uma banana. Já temos relatos dela em diversos locais, incluindo aí em Salvador e Guarajuba também. Está se espalhando muito rápido”, disse D’Angiolella, professora da Universidade Federal Rural da Amazônia, em Capitão Poço, Pará.
Só fêmeas
A nova espécie tem um jeito peculiar de reprodução e chamou atenção dos cientistas. “A espécie é partenogenética, o que significa que se reproduzem por partenogênese – uma forma de reprodução assexuada onde as populações são compostas estritamente por fêmeas”, conta Diele-Viegas.
Numa linguagem menos científica, essa lagartixa barulhenta não precisa do macho para procriar. Se por acaso for possível ver duas da mesma espécie juntinhas e fazendo o barulho peculiar, elas provavelmente estão brigando por território e não cruzando. O que não quer dizer que não possam estar namorando: “a população é só de fêmeas, mas elas se estimulam também para que coloquem ovos”, resume D’Angiolella.
Apesar de não fazer mal aos humanos, é bom ter cuidado com os pets, principalmente os felinos. “Os lagartos, de maneira geral, possuem um parasita ali no intestino. Ele usa os lagartos como hospedeiros intermediários, mas o hospedeiro final é o mamífero, principalmente gato, que gosta de caçar lagartinhos, né? Mas ela está presente inclusive nas lagartixas que já estavam aqui”, pondera. O parasita se chama planinosomose e provoca doenças hepáticas.
Os cientistas também estão pesquisando o quanto o Lepidodactylus lugubris podem afetar nosso ecossistema, pois não se trata de um bicho nativo de nossa fauna. A princípio, risco zero, por um motivo: eles não invadiram florestas e preferem a zona urbana, pertinho de nós.
“Como ele é um animal exótico, que não é daqui, não tem predadores. Não deixa de ser um problema para algumas espécies nativas. Mas dificilmente teremos estes animais entrando na mata. Ele está mais associado às casas e jardins. Teoricamente, este bichinho pode competir com aquela outra lagartixa que já temos em casa. Curiosamente, esta que já conhecemos também não é nativa daqui. Ela é originária da África. Estudos mostram que ela veio na época da colonização, nos navios negreiros”, completa Annelise, que tem um projeto de popularização da ciência, chamado Casa da Ciência. Lá tem publicações de diversas pesquisas, incluindo do bichinho barulhento.
Fonte: Correio


