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Padre Julio Lancellotti rejeita escolta policial após ameaças: Não posso aceitar

 Padre Julio Lancellotti para em frente à igreja Coração Eucarístico de Jesus e Santa Marina, na Vila Carrão, zona leste de São Paulo. Antes de descer do carro, diz e tenta segurar o choro: “É a protetora dos perseguidos”.

Tem sido uma semana difícil. Na terça-feira (15), registrou um boletim de ocorrência por ameaça após ser xingado por um motoqueiro.

Não só. O candidato a prefeito de São Paulo pelo Patriotas, deputado Arthur do Val, vem gravando uma série de vídeos em que culpa o padre pela situação da cracolândia. Em um deles, um capitão da GCM e candidato a vereador também faz coro ao deputado.

PERGUNTA – Por que o sr. vem sendo alvo de ameaças e de quem é a responsabilidade?

PADRE JULIO LANCELlOTTI – É uma boa pergunta para fazer para quem me ataca. Por que me atacam? Tenho suposições. É difícil saber exatamente, não sei por quê. Acredito que é porque eu falo aquilo que eu faço e falo o que vivo. Se eu falasse uma coisa e vivesse outra, se defendesse os moradores de rua e estivesse em um apartamento em Guarujá, as pessoas poderiam dizer “esse padre é folgado”. Mas eu não tenho um apartamento na praia, estou aqui na minha paróquia, durante todos os dias da pandemia nós atendemos e convivemos com a população de rua, todos os dias nós mantivemos contato com eles, socorrendo quem estava doente, medindo temperatura, arrumando roupas, alimentos, água potável.

p. – O que ocorreu nesta semana?

JL – Eu havia celebrado a missa de manhã, levamos as coisas para o espaço de convivência São Martinho de Lima [no Belenzinho] e vieram me chamar porque havia um carro da polícia rondando. Quando estava na praça [Barão de Tietê] conversando com eles, esse motociclista passou não em grande velocidade e falou: “Ô seu padre filho da puta defensor de ‘nóia'”. Ele então continuou fazendo ameaças. Falei pra ele “venha aqui, vamos conversar”. Quando ele virou à direita na rua Sapucaia encontrou com os catadores, eu convivo com todos eles, e “falou vou meter fogo em vocês”.

Aí vem a pergunta: isso tem relação com o deputado [Artur do Val (Patriotas), conhecido como Mamãe Falei]? Eu não posso afirmar isso. A única coisa que posso afirmar é que exatamente o que o motociclista disse para mim “defensor de nóia” é a mesma coisa que esse deputado está falando toda hora. A minha preocupação não é que o deputado vá fazer algo contra mim, mas há uma incitação à violência.

Ontem à tarde, esteve aqui na igreja um grupo da torcida do Corinthians, da Gaviões, e outros grupos independentes. E olha que eles são todos fortes e com um físico avantajado, todos com a camiseta do Corinthians, não é uma turma que qualquer um vá se meter. Aí passou um carro na esquina da igreja e o motorista gritou “Mamãe Falei”, querendo provocar. Isso é uma preocupação.

P. – Por que o sr. acha que está incomodando?

JL – Não sei exatamente o que eles sentem, por isso os convidei a virem nos visitar e nos acompanhar durante o dia. Mas eu acredito que eles sentem que eu justifico a presença deles [moradores de rua]. Não conheço o deputado, o comandante Braga já participou de reunião comigo, e ele sabe a complexidade que é a cracolândia. Dizer que a cracolândia existe por causa do padre Julio é uma coisa muito simplista. A cracolândia não é o único problema da cidade e não é o maior problema da cidade de São Paulo. Pode ser que esteticamente seja um problema, mas o sistema viário é maior, o SUS, as UBS são problemas maiores. A prevenção do uso de drogas é um problema maior.

Aqui, na comunidade São Martinho, que é mantida em parceria com a prefeitura, antes da pandemia passavam pela primeira vez 4.000 pessoas por mês. Durante a pandemia, esse número passou para 8.000.

O eminentíssimo d. Claudio Hummes me ajudou muito quando fui agredido na Febem de Franco da Rocha. Dom Paulo Evaristo Arns me fez vigário episcopal do povo da rua. Dom Cláudio me manteve, assim como o eminentíssimo cardeal d. Pedro Scherer me mantém. Devo obediência ao cardeal, ao arcebispo de São Paulo, e se eu faço alguma coisa que não é correta ele vai me corrigir. Eu sou vigário episcopal do povo da rua, o que quer dizer que eu ajo em nome da Arquidiocese de São Paulo.

A minha vivência com o povo da rua não é uma questão pessoal minha, eu faço em nome da arquidiocese. Faço dentro do que acredito ser servir a essa população.

P. – Depois desse episódio de agressão verbal em que o sr. se sentiu ameaçado, o governo do estado o procurou para discutir sua segurança?

JL – Ainda não. Com as ameaças que recebi algum tempo atrás na internet e que eram bem explícitas “morte ao padre Julio”, “matem padre Julio”, “acabem com esse homem”, ensejou uma ação que chegou à Comissão de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) que emitiu uma cautelar ao governo brasileiro para me proteger. Participei pelo Zoom de duas reuniões recentemente, na Jamaica e em Washington (EUA). Os dois casos do Brasil que foram levados foram o caso da viúva da Marielle e o meu.

O que o Estado me ofereceu? Uma escolta. Eu não aceitei. Por quê? Seria muito cômodo eu ficar com a escolta e o povo da rua continuar apanhando na rua. Recebi agora um vídeo de um policial agredindo moradores de rua. Então eu fico com a escolta e ele [morador de rua] com o cassetete? Eu fico com a escolta e ele com a violência? Eu fico com a escolta e ele com a tortura? Então não tem cabimento. Eu vou ficar com a escolta que representa a mesma força que os tortura, que os desrespeita. Eu não posso aceitar, não quero escolta.

Sabe qual é a minha segurança? Que o povo da rua não seja maltratado, que tenham onde dormir, que o rapa não tire as cobertas, as roupas, os remédios e os alimentos deles. Se isso não acontece, eu não vou ter o que reclamar, não vou ter em que intervir. A minha segurança é a segurança dos pobres, dos moradores de rua.

P. – O sr. teme que essas ameaças se transformem em violência física que coloque sua vida em risco?

JL – Eu já sofri violência física. Para pouca gente eu contei isso o que vou te contar agora. Quatro pessoas que deveriam me matar já vieram falar comigo anos depois. Eles deveriam me matar e não conseguiram. Um deles falou que não conseguiu me acertar com um tiro porque tinha muita gente ao meu lado e algumas crianças.

Teve um caso de uma advogada que um dia ligou para mim e perguntou: “Onde você está?” Respondi que estava na Casa Vida. Ela me disse: “Não saia daí.” Então, ela foi até lá com um rapaz e falou: “Esse é o padre Julio”. Ele ficou me olhando assustado e disse: “Padre, eu fui escalado para te matar, mas fiquei com peso na consciência de ter que matar um padre”. Ele me contou o motivo e que iria me matar atropelado. Eu estava lutando com essa advogada para libertar uma pessoa que havia sido presa injustamente por um homicídio. Essa pessoa foi libertada e o assassino real foi preso. Ele era ligado ao tráfico. Aí veio a ordem.

Falei que não tinha interferido no caso. “Meu filho, a minha única prova é olhar nos meus olhos e acreditar em mim”, disse para ele. “E vou fazer uma coisa, vou entrar no seu carro e você vai me levar para casa para você poder acreditar em mim.” Ele me levou para minha casa. É claro que depois disso fiquei um bom tempo olhando para os dois lados para atravessar a rua.

P. – Padre, o sr. perdoa o deputado Artur do Val e o comandante Braga?

JL – Não tenho ódio deles e não vou semear ódio. O que é o perdão? Eu não esqueço o que eles fizeram e não vou fazer igual. Não vou nunca dizer para eles que eles são cafetões da miséria. Isso seria uma ofensa e minha falta de perdão. O meu perdão é dizer ao deputado e ao comandante: vocês são meus irmãos. Venham me visitar, venham caminhar comigo junto dos irmãos de rua, ouçam o que tenho para falar. Vocês não precisam concordar, mas ouçam, me deem o direito de dizer o que penso, Combater o tráfico é uma coisa, combater as pessoas é outra.

Fonte: O Tempo

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