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Se saia, coronavírus! No Carnaval da Bahia, ebola virou música e hit sempre batiza virose

Se fosse um vinil, o lado A da história do Carnaval de Salvador seriam os bailes de gala, a evolução para o trio elétrico, a africanização por meio do Ilê, o resgate do Filhos de Gandhy, a invenção da Axé Music, o samba reggae, as divas Daniela, Ivete e Claudia, o crescimento comercial da festa etc e tal.

O lado B, muito menos deslumbrante, é uma história microscópica de vírus, bactérias e outros tantos microrganismos terríveis, que encontram nesse aglomerado de luxúria e baixa imunidade um ambiente propício para evoluir e, fatalmente, alastrar-se.

Desde 1817, quando milhares de baianos saíram às ruas para comemorar o casamento do príncipe Dom Pedro com a arquiduquesa Maria Leopoldina, surtos como cólera, tuberculose, varíola, gripe espanhola e sarampo estiveram em corpos de milhões de foliões numa grande linha do tempo epidemiológica.

Não é à toa que a frase mais escrita, dita e reverberada durante as transmissões carnavalescas escondem, na verdade, uma mensagem cifrada sobre este histórico de moléstias e contágio. Quantas vezes você já não ouviu alguém dizer na telinha: “O Carnaval de Salvador é uma alegria que CONTAGIA”?

Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO

Na boca de mais uma festa de rua acontecer, o coronavírus é o pânico do momento. Na China, são mais de duas centenas de mortes. No Brasil, pelo menos 12 casos suspeitos. Muita gente espalha o boato que a folia vai ser cancelada. Outros tantos emitem alertas para evitar beijos, carícias e atos sexuais – a maior entusiasta desta última medida, talvez, seja a ministra Damares Alves.

Pois bem. Depois de instalar um pretenso pânico, vamos agora para o processo de cura. O melhor anticorpo do baiano é seu jeito anárquico. Obviamente isso não exclui observar todos os cuidados necessários com a saúde e, caso persistam os sintomas, um médico deve ser consultado (sempre quis escrever essa frase de bula de remédio).

O ponto aqui é como o baiano lida até com as patologias e as transforma em parte da grande festa. O famoso Alex Xella, autor do hit ‘Tapa na cara’, na época da banda Pagodart, deu seu veredicto em áudio que viralizou nas redes sociais nos últimos dias.

Assim disse Xella: “Não venha com sua palhaçada querendo acabar com meu Carnaval, negão, que é a Terceira Guerra Mundial, vu? Negócio de vírus corona. Corona pra gente é cerveja gelada. Baiano sai ali. Pisa em mijo de rato, dá uma lavada. Não acontece nada. Pisa num prego todo fudido. Você tá achando que dá tétano? Nada. Lava com alfazema, negão. (…) Bateu a cabeça no chão, levantou quebrando, pedindo mais uma gelada”.

Outro fato bastante comum no Carnaval de Salvador é, ao fim dos sete dias de alvoroço e gritaria, a música mais lembrada pelo povão batizar a virose que, fatalmente, se instala na cidade. Não tem votação mais democrática do que esta para saber qual foi “a música do Carnaval”.

A primeira vez que me lembro dessa associação direta entre um hit e uma enfermidade foi em 1999, quando a banda BomBalanço, com Pierre Onassis nos vocais, estourou com a música ‘Juliana não quer sambar’.

Depois da folia, não teve quaresma e nem quarentena que segurasse a onda. A tosse de cachorro dos dias seguintes virou xará da menina metida que não queria cair na dança.

Há quem sustente a tese que, de olho nesse filão alternativo, tem compositor de axé e pagode que já pensa no nome da música prevendo conquistar este prêmio catarro-popular. Afinal, cair nas graças do povão é o melhor termômetro para fazer sucesso.

Desta forma, Banzeiro (2018), Xenhenhemem (2015), Ziriguidum (2013), Circulou (2012) e Dalila (2009) teriam sido criadas para, incialmente, batizar doenças. Depois que vieram as letras. Em alguns casos, nem vieram também.

Voltando ao coronavírus, não provocaria maior taquicardia se algum sacana resolvesse escrever uma música sobre esta epidemia chinesa. Afinal, esse absurdo tem precedente. 

Em 2014, o cantor baiano Demétrius Sena fez barulho na (deep) web com uma música sobre o vírus ebola, responsável por matar milhões de pessoas, sobretudo no continente africano.

Em um clipe gravado na praia em Ilhéus, no sul do estado, o cantor emendava os insólitos versos: “Ebola, ebola, tentando me matar. Ebola, ebola, vai te contaminar. Ebola, ebola, que miséria é essa…”

Se fosse um vinil, o lado B do Carnaval de Salvador não deveria ser tocado na vitrola por uma agulha. Mas, sim, por uma seringa hospitalar.

Fonte: Correio

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