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Falando sobre política, drag queen troca noites de SP por salas de aula

De camiseta, bermuda, sapato e óculos de grau, Guilherme Terreri, 29, chega ao CCSP (Centro Cultural São Paulo), ponto de encontro escolhido pela Folha de S.Paulo.

Já de frente ao espelho do camarim, abre a bolsa, tira pincéis, base, corretivo, blush e pó compacto enquanto cantarola “Elizabeth Taylor”, música da britânica Clare Maguire.

Antes da primeira pincelada no rosto avisa: “cuidado para não se arrepender”. A partir dali, o rapaz introspectivo de fala mansa começa a sumir debaixo das camadas de maquiagem.

O que vem por aí pode ser uma pin-up ou uma elegante senhora do Jardim Europa da década de 1950 muito desbocada. Mas construir o look é processo lento.

Só a maquiagem consome 2h. Enchimentos dão formas femininas ao corpo. A transformação só empaca na hora da troca de roupa. Guilherme não consegue fechar sozinho o zíper de seu vestido, tarefa para a amiga e assessora Mari G.

“Isso faz a gente pensar sobre a roupa da mulher que a coloca numa posição de incapacidade, de precisar de ajuda para se vestir. É tipo: Ah ela precisa de um homem que a vista”, diz.

Já vestida, supermaquiada e sobre um salto alto corre atrás da cereja do bolo: a peruca. Pronto! “Ai gente a Rita Von Hunty chegou”, grita em êxtase num sotaque carregado igual ao de uma moradora do Bixiga, berço paulistano dos descendentes de italianos.

Rita é a personagem criada por Guilherme, que é drag queen. A expressão em inglês remete ao artista que usa maquiagem, roupas e perucas exageradas – geralmente do gênero oposto -, para fins de entretenimento. LGBTs, héteros, pessoas cis e trans podem ser drags.

Guilherme está mais para a turma queer. “Uma galera que entendeu que o gênero é uma construção social”, afirma.

O nome homenageia a sua atriz hollywoodiana predileta: Rita Hayworth (1918-1987), que nasceu no mesmo dia que ele -17 de outubro.

“Ela passou por uma experiência embranquecedora. Quando chegou à Hollywood, a primeira coisa que a indústria do cinema pediu foi a troca de seu nome latino. Ela deixou o Margarita e virou Rita. Não é isso que o capitalismo faz?”.

Mas também lembra as duas mulheres mais importantes da vida dele. “A Rita é quase imageticamente um tributo à minha avó e conteudisticamente um tributo à minha mãe.” Do pai diz nunca ter recebido apoio. “Ele é o famoso aborto masculino. Nunca pagou pensão, nunca se preocupou”. Tem um irmão.

Guilherme escolheu um caminho diferente dos demais artistas. Deixou a bateção de cabelo de lado para bater papo sobre assuntos contemporâneos. Conseguiu plateia. “Ninguém espera que uma drag queen fale. Porque nós somos o gueto, do gueto, do gueto do sem fim do mundo”.

A ideia de tirar sua drag dos palcos surgiu de um desabafo para Mari G. entre uma jogada e outra de baralho numa noite em seu apartamento. “Eu disse a ela que estava cansado de ficar montado, daquela vida de shows”, conta.

Mari G., então, tascou a ideia na mesa: porque você não faz uma professora drag? Foi um xeque-mate! “Sou educador desde os 14 anos. Tinha muito conhecimento acumulado que eu não conseguia dizer no palco para o público da noite.”

Conhecimento não falta. Guilherme é uma pessoa que carrega referências bibliográficas em cada frase que solta. Coisa de quem leu muito e soube tirar o melhor que uma universidade tem a oferecer.

Nascido em Ribeirão Preto (SP), tem graduação em artes cênicas e licenciatura em letras. Também iniciou um mestrado em estudos de cultura na USP (Universidade de São Paulo).

Fazer da Rita uma professora foi tarefa fácil. O conteúdo de seu curso de formação em política e ciências humanas partiu de suas inquietações. “Eu sou um membro da classe trabalhadora, sou afetado pelas políticas higienistas.”

Tem aulas sobre temas que vão do capitalismo à masculinidade tóxica. “Quando eu falo sobre a breve história do capitalismo, vou fazendo isso usando obras de arte. Quando eu chego no pré-romantismo inglês, uso William Blake, um pintor que denunciava a morte de crianças que limpavam a chaminé de milionário. Eu sempre choro nessa parte”, diz.

Suas aulas já foram ministradas em universidades, empresas e sindicatos em várias partes do país. “E já teve gente que ganhou o curso pensando que assistiria a um tutorial de maquiagem. Realmente ninguém pensa que uma drag pode falar sobre qualquer coisa”, afirma.

Rita Von Hunty apareceu pela primeira vez no Carnaval de 2013. Era o “Baile das Montadas”. Guilherme havia combinado o rolê com amigos; todos iriam à festa reproduzindo trajes das drags que disputavam na época o título do reality show norte-americano RuPauls’ Drag Race, uma referência mundial para quem quer ser drag queen.

“Mas eles desistiram uma semana antes. Como eu não nasci colado em ninguém fui com uma amiga sapatão”. Surgia ali a Rita Von Hunty. A primeira aparição da personagem rendeu convites para hostess, shows e participação em reality. Hoje é apresentadora do “Drag Me as a Queen”, do canal E!, e colunista de “CartaCapital”.

Ficou mais conhecida em 2015, quando criou o “Tempero Drag”, seu canal no YouTube seguido por 275 mil pessoas que no início unia culinária vegana e humor político, mas hoje passou a falar sobre tudo.

Em um vídeo de 17 minutos de duração em seu canal cujo tema é “Guerra às drogas” questionou a escolha da polícia “em sempre invadir comunidades para apreender entorpecentes” quando são deixados de lado nessas operações espaços elitistas, como boates e festas rave.

Rita não esconde sua posição política. “É frango assado”, brinca, só para dizer que é marxista mística porque gosta de signos. “Se o Adorno (filósofo alemão e pai do conceito de indústria cultural) me pega falando isso eu apanho”.

“A esquerda precisa se reinventar e está se reinventando. Eu acho superssintomático que de 2014 a 2018 a bancada do PSOL tenha dobrado”, diz.

Guilherme é entusiasta do educador Paulo Freire, atacado pelo atual ministro da Educação Abraham Weintraub, e de quem carrega um mantra. “Educar não é transferir conhecimento. Mas é criar um ambiente onde o conhecimento possa ser produzido”.

Também é crítico voraz da gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em razão “de suas propostas antidemocráticas”. “É por isso que eu recebo uma ameaça de morte por dia na internet.”

Ciente de seu papel no mundo, o artista se vê como que carregando a mesma tocha histórica que um dia recebeu do ator Jorge Lafond (1952-2003) e da drag Isabelita dos Patins, só para citar alguns. Mas com uma diferença.

“São figuras que serviam para que todo mundo desse risada da gente. Para que o nosso estilo de vida, a nossa forma de estar no mundo fosse piada, pecado e crime. É 2020! Eu não sou piada, não sou pecado e não sou crime. Nunca serei.”

Fonte: O Tempo

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