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Brasileiros cruzam cidades e madrugam na fila por refeição de R$ 1 até R$ 3

“Tenho feito alguns bicos, mas já são três anos desempregado. A comida daqui é boa e alivia o bolso. É uma alternativa que encontrei.”

A frase é do cabeleireiro Ariel Silva, 43, que passou a frequentar o restaurante popular de Parangaba, em Fortaleza (CE), que oferece por dia em média 1.300 refeições a R$ 1.

A história de Silva é um retrato da situação de inúmeros brasileiros que, seja pelo desemprego ou pela informalidade, têm recorrido a restaurantes populares para aliviar os gastos ou até conseguir bancar uma refeição por um preço que varia de R$ 1 a R$ 3, dependendo da cidade.

Assim como o cabeleireiro que passou a frequentar o restaurante nos últimos meses, a arrumadeira Elizabet Soarez, 54, aderiu não há muito tempo ao baixo preço de restaurantes populares. Na semana passada, ela foi pela segunda vez ao Bom Prato da Lapa, localizado na zona oeste da capital paulista e que serve 1.600 refeições por dia.

“Não sabia [do restaurante]. Vim com meu irmão procurar emprego aqui perto e descobri. A comida é boa e é mais barata”, diz Soarez, que teve seu último registro em carteira em 2015 e, desde o ano passado, não tem conseguido encontrar trabalho como diarista, atividade que passou a exercer após ficar desempregada.

Ainda que dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontem uma queda no número de desempregados no Brasil, de 13,3 milhões de pessoas nos primeiros três meses de 2019 para 12,4 milhões no terceiro trimestre, a recuperação do mercado de trabalho tem ocorrido à custa da explosão da informalidade.

Mesmo tirando parcela da população da desocupação, o trabalho informal costuma ter rendimentos menores e não oferece benefícios como o vale-refeição, comum para trabalhadores com salários mais baixos.

Daí a preferência de quem está nesta situação pelos restaurantes populares.

O vigia noturno Marco Aurélio Azevedo, 49, afirma que pelo menos duas vezes ao dia come no restaurante de Bonsucesso, zona norte do Rio de Janeiro. O estabelecimento serve 600 cafés da manhã e 1.250 almoços diariamente.

“Em outros lugares você paga R$ 10 em um prato igual ao servido aqui, que ainda tem um cafezinho para completar”, diz Azevedo, que trabalha como autônomo. Ele paga R$ 2 pela refeição.

“Os pratos daqui têm um preço acessível para quem não tem dinheiro. Meu irmão, que mora comigo e é vendedor ambulante, também almoça aqui todos os dias”, afirma.

Os trabalhadores informais são aqueles empregados no setor privado e trabalhadores domésticos que não têm carteira assinada, os trabalhadores por conta própria -como os vendedores ambulantes-, empregadores sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares.

A informalidade no país bateu recordes consecutivos ao longo do ano, chegando a 38,7 milhões de brasileiros no trimestre encerrado em outubro de 2019. No mesmo recorte do ano anterior, o total era de 38 milhões.

Isaías Gonçalves, 63, perdeu o emprego na portaria de uma loja há um ano e seis meses. Primeiro veio o corte na cesta básica; depois perdeu o salário de R$ 1.010.

Passando os dias no centro de Belo Horizonte, as idas dele ao Restaurante Popular 1, um dos primeiros do gênero no país, ficaram mais frequentes. Ele paga R$ 3 pelo almoço, enquanto só a passagem de ônibus sai a R$ 4,50.

Ele espalhou currículo em vários lugares, mas, sem nenhuma resposta, criou um bico para sobreviver: se oferece para carregar mercadorias de clientes de um supermercado em troca do que quiserem pagar. Em alguns dias consegue R$ 20, diz ele.

“Sabe qual é meu sonho? Pelo menos, um emprego temporário. Mas tempo de Deus é tempo de Deus. Me quebraria o galho, ao menos, para pagar o aluguel, que está muito atrasado.”

A enfermeira Jaqueline Matos, 36, faz parte do contingente de brasileiros com ensino superior que estão na luta por um emprego ou que trabalham menos horas do que queriam, os subocupados.

Na saída do refeitório da Lapa, em São Paulo, ela afirma que vai ao local porque o preço é bom, assim como a comida. Mas evita se prolongar no assunto alimentação para já emendar seu inconformismo com o mercado de trabalho.

“Cansei de fazer bico, mas está difícil conseguir um emprego com carteira assinada”, diz ela, que está sem um registro formal desde 2016.

Sem emprego desde outubro, Tatiana Úrsula , 39, começou a frequentar o restaurante de Belo Horizonte há três anos, quando fazia um curso em um Senac na região. Agora, entregando currículos no centro da capital mineira, tem recorrido ao estabelecimento.

“Se não tivesse aqui, realmente, não sei como seria. Eu não gosto de comer salgado, ficaria sem opção. Fora daqui tem um lugar onde custa R$ 10 o almoço, às vezes vou lá, mas raramente.”

Já para Edvaldo Pereira, 64, o almoço no restaurante popular no bairro do Comércio, em Salvador, é o seu desjejum.

Ele, que costuma fazer a última refeição do dia por volta das 20h, chega todo dia às 6h para assegurar o primeiro lugar na fila do estabelecimento que só abre às 11h.

Pereira diz que a última vez que teve um trabalho formal foi há oito anos. Atualmente ele recolhe materiais recicláveis, e aquilo que consegue arrecadar não chega a meio salário mínimo por mês.
“O dinheiro não dá para segurar a barra, mas fazer o quê?”, afirma Edvaldo Pereira, hoje em situação de rua.

“Esse restaurante alivia a situação de muita gente”, diz. De fato os restaurantes populares aliviam as contas de muitos brasileiros, estejam eles em situação de desemprego e informalidade ou não.

É o caso do aposentado Raimundo dos Santos, 72. Ele atravessa a cidade de Salvador, ao sair de Cajazeiras para o Comércio, num trajeto de 21 km, para comer no restaurante popular, por opção.
“Eu não gosto da comida do asilo onde moro”, diz o idoso, que chega à fila de prioridade também por volta das 6h.

No Rio, o também aposentado Messias dos Santos, 72, diz ter dívidas a pagar e, por isso recorre à alternativa mais barata na hora das refeições.

“Almoço aqui quase todos os dias. Tenho filho que me ajuda, mas não quero incomodar, então venho quando estou sem dinheiro.

Fonte: O Tempo

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