Fé e arte inovadora andam juntas na obra de Rubem Valentim

Quando ninguém ousava desconfiar, o mundo já parecia saber do legado que o artista baiano Rubem Valentim deixaria para a cultura. Prova disso é que no mesmo ano em que estreava a Semana de Arte Moderna do Brasil, em 1922, nascia o pintor e escultor que se tornaria um dos maiores nomes a valorizar as expressões regionais do Brasil em suas obras, conforme ansiava o movimento artístico da época.
Desde lá, foram necessários 20 anos para que o dom de Valentim fosse conhecido, espera que, dada a originalidade e transformação propostas pelo artista plástico, ao longo dos anos, valeu a pena. Sua produção começou a partir da pintura de quadros que ilustravam a natureza, paisagens urbanas, flores e figuras humanas, integrando o Movimento de Renovação das Artes Plásticas na Bahia, junto com Mario Cravo Júnior e Carlos Bastos.
Foi a partir de 1955, após se formar em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e mergulhar nos elementos das religiões de bases africanas – como a umbanda e o candomblé -, que Rubem Valentim encontrou em si mesmo a identidade prevista em 1922. Foi então que suas obras ganharam a simbologia, forma geométrica e estética que se tornariam sua marca registrada.
São essas composições que o público pode conferir a partir de amanhã no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) em exposição permanente no Espaço Rubem Valentim. No local, o destaque vai para a coleção Templo de Oxalá, apresentada pela primeira vez em 1977, na XVI Bienal Internacional de São Paulo, e que foi restaurada.
![]() |
| Parte do acervo de Rubem Valentim doado ao Mam (Foto: divulgação) |
Templo de Oxalá
Em celebração aos dois centenários, o de Valentim e o da Semana de 22, o MAM exibe 20 esculturas e 10 relevos que compõem o Templo de Oxalá, para visitação gratuita do público. Como grande parte das obras foi produzida a partir da década de 50, com inspiração nos símbolos e ferramentas dos orixás, as peças são confeccionadas com madeira, esculpidas em formas geométricas e coloridas de branco.
Características que, como explica o curador do MAM, Daniel Rangel, fazem referência aos atributos da entidade que é ligada à criação do mundo e dos homens, sendo associada ao Cristo no sincretismo religioso. “Oxalá também é conhecido no panteão dos orixás como Obàtálá”, detalha o curador.
As peças foram doadas ao museu, em 1977, pela esposa do escultor, Lúcia Alencastro. Segundo Pola Ribeiro, diretor da instituição, é uma obra que reflete bem a personalidade do artista: do tipo que ultrapassa a simbologia religiosa, ao mesmo tempo que a traduz.
“Mesmo sendo inspiradas na religião, você não vai encontrar nada parecido com essas peças em um templo, mas vai ver o templo nessas peças. Esse era o brilhantismo de Rubem Valentim”, afirma.
Ainda segundo o diretor do MAM, essa é uma reabertura pensada para que todos os baianos possam conhecer o artista que pertence a Bahia, mais especificamente ao município de Salvador. Para isso, ela será uma exposição permanente e ainda contará com vitrines exibindo documentos originais de Valentim, e uma linha do tempo sobre a vida dele e seu acervo. Além disso, o MAM também fará o lançamento nesta sexta do filme e do catálogo Ilê Funfun: Uma Homenagem ao Centenário de Rubem Valentim, às 16h e 17h, respectivamente, também gratuitos.
Produzidos pela Almeida & Dale Galeria de Arte, de São Paulo, os dois são produtos da exposição itinerante de mesmo nome, pensada pela empresa para celebrar os 100 anos de Valentim. A mostra foi composta por três coleções do acervo dele, entre elas a Templo de Oxalá, que foi restaurada antes de seguir para São Paulo e Brasília. Agora, retornando para Salvador, traz consigo alguns documentos pessoais do artista, além do filme e catálogo elaborados.
Veja algumas das obras de Rubem Valentim:
Religiosidade
Antes mesmo de retratar a religiosidade afro-brasileira em suas obras, ela já estava presente na vida de Rubem Valentim. Nascido um homem de pele preta na Salvador de 1922, como o primeiro de seis filhos, cresceu frequentando terreiros de candomblé com o pai. Como a outra parte da família era católica, ele também fez a primeira comunhão.
Mais tarde, Valentim se tornou um artista autodidata apresentando um duplo envolvimento estético tanto nos ritos de matrizes africanas, quanto no imaginário católica das igrejas, de onde se inspirou nas imagens dos santos barrocos. Na década de 60, casou-se, mas nem no matrimônio deixou a arte de fora. Sua esposa Lúcia Alencastro era arte-educadora e uma das fundadoras da Escolinha de Arte do Brasil.
Antes de morrer, em 1991, aos 69 anos, Rubem Valentim morou e levou consigo sua arte para Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Roma (Itália). Também acumulou diversos prêmios ao longo da carreira, como o Prêmio Viagem ao Exterior, recebido durante sua participação no Salão Nacional de Arte Moderna.
Mesmo considerado um pintor construtivista – classificação europeia -, rejeitou sua filiação a qualquer corrente estrangeira, reafirmando o caráter nacional de sua produção.
Serviço
16h – Exposição Templo de Oxalá
16h – Exibição do filme Ilê Funfun: Uma homenagem ao Centenário de Rubem Valentim
17h – Lançamento do livro Ilê Funfun: Uma homenagem ao Centenário de Rubem Valentim
Local: sexta (25), no Museu de Arte Moderna, Solar do Unhão. Grautito
*Com orientaçãoda subeditora Doris Miranda
Fonte: Correio


