Bahia

Carybé bate perna pelas ruas da cidade na festa de Yemanjá

Todo mundo sabe que Carybé faleceu em 01 de outubro de 1997, ano passado fez 25 anos, ainda assim, sua presença permanece forte entre nós, como se continuasse bordejando pelas festas nos largos da cidade. Quem quiser que duvide, eu acho que ele ainda bate perna por aqui. Talvez, por saudades dos movimentos e das bagunças nas festas de largo, tenha vindo dar uma espiadinha para ter novidades a contar em suas conversas de volta e meia. E, também, porque ele gostava mesmo muito das festas de rua, particularmente, as do Bonfim e de Yemanjá. E a de Yemanjá, então? Era quando se sentia mais baiano. Não podia perder, por isso, veio andar à toa pelas ruas do Rio Vermelho. Para verificar se ainda se confirma o que afirmava ser a última do ciclo de festas populares da Bahia, ele também queria agradecer, mais uma vez, o tempo à mãe de todos os orixás e a dos peixes que navegam as estradas infinitas do mar. 

Ele que não nasceu peixe, capoeirista nem Obá, foi se confirmando nessas e em outras coisas pela vida a fora. Na verdade, nasceu Hector Júlio Paride Bernabó, em 7 de fevereiro de 1911, em Lanús, subúrbio de Buenos Aires, na Argentina, filho de mãe brasileira – gaúcha de Santa Maria da Boca do Monte – e pai italiano. E lá se vão 112 anos. Saiu da Argentina pequeno, viveu os primeiros anos na Itália, costumava dizer aos amigos que seu primeiro idioma foi o italiano. Seu aniversário sempre foi perto da festa de Yemanjá. Por isso olhamos para a festa e, logo, imediatamente, lembramos dele, olhando o mar. Em sua vista sempre tinha o mar.

“E tem o mar. O mar ritmando. Azul. Se inchando e desinchando por amor a lua, o mar, morada de Yemanjá, mãe dos peixes, noiva dos afogados e dona das águas, bate espuma na areia branca. Para ser mais exato é o fim do mar. O fim do mar é em todas as praias do mundo. O começo ninguém sabe.” 
Sua vida sempre foi uma andança ligando cidades entre países, entre continentes, levado por navio para atravessar oceanos de muitas cores até chegar no mar verde-verde de sua predileção, quando veio a Salvador. Ele veio pela primeira vez em 1938. Nesta primeira visita, se encantou pela cidade. Ele viu a cidade, que “numa clara manhã de agosto, dia mágico em que, de um risco verde no horizonte, a Bahia surgiu no mar. 

A cidade veio vindo ao meu encontro, cada vez mais luminosa, cada vez mais definida, veio vindo, veio vindo, até que atracou toda no Itanagé. Nesse ano, fui definitivamente tarrafeado por sua luz, sua gente, seu mar e sua terra”. 

Painel de Carybé no Museu Afro-Brasileiro

(Foto: Wal Souza/Divulgaçãp)

Nesse ano não pode ficar, teve que ir embora. Só em 1953, Carybé passa a fazer de Salvador a sua morada definitiva e, quatro anos depois, em 1957, consegue a cidadania brasileira. Ele se sentia um baiano autêntico, vivendo, trabalhando, perambulando e olhando as vistas da cidade. Uma das grandes razões para se sentir assim é narrada por Rubem Braga, na crônica, “Um brasileiro”, publicada no Diário da Notícia, em 16 de fevereiro de 1957, ao reproduzir a expressão de Carybé comunicando-o, do nascimento da filha, “sou pai de uma baiana!”. É Rubem Braga, também, quem considera, nesse mesmo texto, que Carybé só se naturalizou brasileiro, porque não existe, formalmente, uma nacionalidade baiana.

Andar pela cidade em nossas próprias pernas parece sempre contar com a companhia desse artista interessado nas cores, nas formas, nos enredos das vidas espalhadas pelas ruas e ladeiras. Se ele nos vê, nós também o vemos rindo sem graça ao ser pego contando mentiras, fazendo uma piada, movimentando-se como quem vai dar um rabo de arraia, lutando em uma roda de capoeira imaginária. Ele anda pelas ruas de Salvador, como fez na festa de 2 de fevereiro, quinta-feira passada. Carybé compôs uma arte integrada não só com romancistas, músicos, artistas plásticos iguais a eles, fotógrafos que tinham a fotografia como marco etnográfico, como elaborou projetos com urbanistas e arquitetos. Há por isso Carybé para todo lado. 

Há, inclusive, uma Yemanjá em talha de cedro prensado, com 3 por 1m, entalhado em alto e baixo relevos e com incrustações, belíssima. A orixá dos seios fartos, ventre repleto de orixás por nascer, pernas de sereia e os pés mais bonitos já esculpidos pelo artista. Esses pés esculpidos em detalhes se sustentam em peixe mabaço de lados trocados. O painel compõe com outros 26 o Mural dos Orixás exposto permanentemente no Museu Afro-Brasileiro (MAFRO/UFBA), cedido, em comodato, pelo antigo Banco da Bahia S.A e atualmente pertence a Abaeté Administração de Bens Próprios S.A. O MAFRO esteve fechado no período da pandemia e voltou a funcionar normalmente de segunda a sexta, das 9 às 17 horas, no prédio da Faculdade de Medicina, ao lado da Catedral. Para grupos escolares, visitas podem ser agendadas pelo correio eletrônico do setor educativo do museu. 

Vale a pena visitar, porque das 38 peças do artista distribuídas pela cidade, entre esculturas, gradis, mosaicos, painéis e murais, catalogadas por mapeamento organizado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), o Mural dos Orixás é uma das obras não listadas, por se encontrar em museu. 
Não fique intrigado, contudo, se vir por lá, andando livremente, o próprio artista, que gostava muito de ir ao Pelourinho.

Wal Souza é pesquisadora associada Mafro/Ufba, em cooperação técnica entre IFES (UFRJ – Ufba

Fonte: Correio

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