Covid: 130 mil crianças perderam um dos responsáveis no Brasil

1,5 milhão de crianças no mundo perderam a mãe, o pai, um avô ou avó ou um responsável
ARSHAD ARBAB/EFE/EPA

Os cuidados com a pandemia, atualmente, estão voltados para o controle da transmissão, distribuição de vacinas e prevenção da doença. Mas, os efeitos secundários do surto mundial também são extremamente importantes. As mortes por covid-19 deixaram 130.363 crianças brasileiras sem a mãe, o pai, um avô ou avó ou um responsável. No mundo, esse número chega a mais de 1,5 milhões de pessoas.

Os dados são resultado de um estudo publicado pela revista científica “The Lancet”, que analisou informações de 21 países, de março de 2020 até abril de 2021. Os pesquisadores incluíram Brasil, Argentina, Colômbia, França, Alemanha, Quênia, Malawi, África do Sul, Espanha e EUA, que foram responsáveis por quase 77% das mortes por covid-19 no mundo inteiro, para extrapolar uma estimativa global mínima.

O estudo apontou que em lugares como Brasil, Peru, África do Sul, México, Colômbia, Irã, Estados Unidos, Argentina e Rússia, a taxa de mortalidade de cuidadores primários foi de pelo menos uma a cada 1 mil crianças.

Os cientistas observam que 1,13 milhão de crianças perderam um dos pais ou um avô responsável devido a uma morte associada à covid-19. Destes, 1 milhão era órfão da mãe, do pai ou de ambos. Sendo que a maioria perdeu um dos pais e não ambos.

No total, 1,56 milhão de pessoas sofreram a morte de pelo menos um dos pais, avô de guarda, avô coabitante ou outro parente idoso que vivia com eles. A perde dos avós, que em muitos casos são o sustento da família ou a garantia de que os pais possam trabalhar, já que eles cuidam dos netos, é um fator de preocupação para os pesquisadores.

As mortes associadas à covid-19 foram, em todos os países, mais elevadas entre os homens do que entre as mulheres, especialmente nas faixas etárias médias e mais velhas. No total, houve cinco vezes mais perdas de pais do que de mães.

Na publicação, os pesquisadores alertam que crianças órfãs paternas têm maior probabilidade de sofrer violência sexual, potencialmente ligada à vulnerabilidade econômica familiar, comparado com aquelas que têm pais.

A análise utilizou dados de mortalidade e fertilidade para modelar as taxas de orfandade associadas ao coronavírus e as de custódia e coabitação de avós (60-84 anos) de 1º de março de 2020 a 30 de abril de 2021.

Os pesquisadores se referem a mortes associadas à doença, ou seja, a combinação das causadas diretamente pela covid e aquelas devidas a fatores como confinamento, restrições de reuniões e movimento, diminuição do acesso ou aceitação de cuidados de saúde e tratamento de enfermidades crônicas.

Experiências traumáticas, tais como a perda de um pai ou cuidador, estão associadas ao aumento do uso de substâncias, saúde mental e outras condições crônicas de saúde e comportamento.

“Estudos como este desempenham um papel crucial na iluminação das consequências duradouras da pandemia para as famílias e a futura saúde mental e bem-estar das crianças em todo o mundo”, afirmou Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas (Nida), uma das financiadoras do trabalho.

Outros riscos psicossociais incluem abuso doméstico e violência sexual, emocional e física. Prevenir a violência e apoiar uma paternidade positiva é essencial, especialmente em famílias estressadas que experimentam novos arranjos de cuidado.

“Embora o trauma que uma criança sofre após a perda de um dos pais ou cuidador possa ser devastador, há intervenções baseadas em evidências que podem evitar consequências adversas, como o uso de substâncias. Devemos garantir que as crianças tenham acesso a elas”, acrescentou Volkow, conforme citado pela “Lancet”

No entanto, a maioria das crianças enlutadas não fica sem adultos para cuidar delas. Alguns permanecem com pais solteiros; outros podem entrar em parentesco, adoção ou cuidado adotivo.

O ensaio sugere que os governos criem linhas de apoio para as crianças. focadas no fortalecimento da família e na prevenção da violência. Ações de baixo custo podem melhorar vários resultados para crianças com cuidadores falecidos.

“São necessários investimentos urgentes para programas aceleradores adaptados ao COVID-19, que combinam intervenções econômicas, pais positivos e apoio educacional. O foco deve ser no fortalecimento da família onde há um cuidador sobrevivente, ou na garantia de um cuidado familiar seguro, estável e nutritivo por meio do parentesco, a prática islâmica de kafalah, orfanato ou adoção”, conforme autores publicaram na revista científica.

Fonte: Saúde R7

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